MOVIMENTO
DE INCLUSÃO
O
coreógrafo norte-americano Alito Alessi fala de como abriu as
portas da dança para todos os tipos de pessoas
Diretor
artístico da Joint Forces Dance Co., núcleo que faz parte
do departamento de dança da Universidade do Oregon, nos Estados
Unidos, o coreógrafo e professor norte-americano Alito Alessi
é o criador do danceability, método inclusivo de dança
que tem como objetivo unir portadores e não-portadores de deficiência
na exploração e criação de movimentos. Alessi
é nome importante na evolução da dança contemporânea
nos últimos 20 anos e é conhecido internacionalmente como
pioneiro na área do contato-improvisação e no trabalho
com a dança e a deficiência. Atualmente recebe estudantes
de dança e pessoas interessadas em trabalhar com grupos mistos
- formados por portadores e não-portadores de deficiência
- vindos de vários países da Europa, América Central
e América do Sul para o DanceAbility Teacher Certification Course
(curso de certificação em danceability para professores),
com duração de um mês. O trabalho do coreógrafo
inclui também assessoria a professores de dança que queiram
tornar suas aulas mais acessíveis a portadores de deficiências.
Alito Alessi esteve no Brasil nos meses de maio e junho para ministrar
cursos em diversas unidades do Sesc São Paulo e também
para participar do Simpósio Sesc de Atividades Físicas
Adaptadas, realizado no Sesc São Carlos em maio. A seguir, trechos
de sua palestra Arte Possível - Perspectivas entre Arte e Deficiência.
Igualdade entre
as pessoas
Acho que a arte deveria ser uma reflexão honesta e uma possibilidade
de educação. No meu trabalho, faço muitos tipos
de show. Isso porque trabalhos diferentes atraem pessoas diferentes.
Às vezes, faço uma pequena demonstração
em um espaço público, às vezes faço performances
em teatros grandes. Mas todo o trabalho é um reflexo do que acho
que seja a sociedade. Penso que não adianta muito só ficarmos
reclamando da sociedade. Cresci nos Estados Unidos na década
de 70, época de uma grande revolução cultural rumo
à democracia - não estou aqui dizendo que os Estados Unidos
são uma democracia, não quero falar de política
-, mas é só para dizer que eu acredito na igualdade entre
as pessoas. Por muitos anos trabalhei dizendo que acreditava nisso e
pensando que realmente estava fazendo isso. Fui muito bem-sucedido,
mas sentia um vazio dentro de mim e da minha arte. Perguntei-me por
quê. Não estava associando meus valores a meu trabalho.
Se você acredita em democracia, isso vale para todas as pessoas.
E como isso poderia ser possível? Um grande experimento, uma
grande coisa surgiu daí. Isso não significa que tive uma
grande idéia, mas sim que todos esses corpos se juntaram e alguma
coisa surgiu a partir deles. Outra coisa que não havia percebido
é que, mesmo com minha mãe sendo "diferente"
[portadora de deficiência], eu nunca me relacionei com ela como
se ela fosse uma deficiente. Ela era simplesmente a minha mãe,
e acho que essa afirmação diz muito.
Responsabilidade
de expressão
Trabalho com a linguagem do corpo. Digo em alguns de meus cursos que
todo corpo pode fazer todos os movimentos, e qualquer parte do nosso
corpo pode expressar todos os sentimentos que todos nós conhecemos.
E as pessoas precisam se expressar. A sociedade precisa que nos expressemos.
Alguns podem dizer que aquelas pessoas deficientes dançando são
muito especiais, e que é muito bonito ver essas pessoas que não
são deficientes dançando com elas. Mas não é
nada disso, todos temos a responsabilidade de nos expressar, de dar
o que temos e também de pegar das outras pessoas o que precisamos.
Um cara com quem trabalho sempre diz que deficiência é,
na verdade, a inabilidade de pedir o que a gente precisa para ser feliz,
só isso. Se há alguma coisa que vale no meu trabalho,
talvez seja o fato de que consegui fazê-lo ser uma coisa prática.
Passei 20 anos tentando transformar essa filosofia em uma experiência.
Para mim, não é suficiente simplesmente sentir meu próprio
corpo se movimentando e desenvolver uma carreira - e assim conseguir
o dinheiro que preciso para viver. Meu interesse é realmente
transmitir algo para as pessoas. Por isso, desenvolvi um método
muito simples, não tem nada de novo nem de profundo. Foco na
natureza dos nossos corpos, das nossas relações, dos nossos
lugares na nossa comunidade e em como cada um de nós afeta nosso
meio ambiente.
Espaço
para todos
No meu processo de ensinar, nunca ensino nada que alguma pessoa dentro
do grupo não possa fazer. Só ensino coisas que todo mundo
do grupo possa fazer. Por isso, o método de trabalho e o método
de ensinar esse trabalho mudam dependendo do tipo de grupo que está
envolvido. Quer dizer, se há pessoas com e sem deficiência,
você encontra jeitos de passar a mesma informação,
mas de uma maneira que funcione. Se você traz para o grupo alguma
pessoa que não pode ver, então o método tem de
mudar um pouco. Não é a informação que muda.
Se você trouxer pessoas com deficiências mentais ou cognitivas
para esse grupo, de novo o método muda, e não a informação.
Minha responsabilidade como professor é incluir cada pessoa que
vem até mim. Acredito nisso: transmitir a mesma informação
de maneira que ela seja acessível a todos. Isso pode soar meio
complicado, mas na verdade não é. Talvez você goste
de só fazer aeróbica ou só queira se mexer e ter
um momento legal com seu corpo. Dá para incluir isso também
na aula. Mas talvez você queira trabalhar junto com um pequeno
grupo de pessoas e fazer eventos comunitários. Também
dá para fazer isso. Ah, você quer ser um dançarino
profissional ou um professor? Também há um treinamento
para isso. Esse treinamento que dou para ensinar as pessoas a se tornar
professores, profissionais de danceability, envolve pessoas com e sem
deficiência, e está nos maiores festivais do mundo. Até
os grandes festivais de dança contemporânea do mundo abriram
suas portas e reconheceram não só a necessidade, mas o
desejo que todos têm de aprender uns com os outros. As pessoas
só não entenderam isso porque ainda não tiveram
chance.
Inteligência
da natureza
No meu trabalho, ensino as pessoas sobre a linguagem do próprio
corpo, sobre como se comunicar não verbalmente, pois a linguagem
oral não é realmente necessária para a comunicação.
Mesmo o entendimento não é tão necessário
para a comunicação. Certa vez, fui convidado para trabalhar
em uma reserva indígena nos Estados Unidos com 30 crianças
de 12 a 16 anos. Essas crianças não podiam ouvir nem falar,
nunca tinham saído da reserva e também nunca estiveram
em uma situação social. Quer dizer, elas não tinham
nenhuma habilidade de linguagem e não sabiam linguagem de sinais.
Eu não podia falar com elas, mas isso não nos impediu
de termos momentos muito agradáveis durante o trabalho, foi uma
grande lição para mim. O que quero dizer com isso é
que se pode aprender muito com contextos sociais diferentes. Uma comunidade
ensina algo para as pessoas que não pertencem a ela só
pelo jeito de fazer as coisas. Estou sempre interessado em mostrar como
as pessoas fazem as coisas, como as comunidades fazem as coisas. Isso
afeta o meio em volta delas. Assim, a natureza tem uma grande inteligência,
e a nossa natureza interior também tem essa mesma inteligência.
"Alguns
podem dizer que aquelas pessoas deficientes dançando são
muito especiais, e que é muito bonito ver essas pessoas que não
são deficientes dançando com elas. Mas não é
nada disso, todos temos a responsabilidade de nos expressar"
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