
O
ofício da luteria, conhecimento passado de geração
para geração, faz a alegria de violeiros e outros músicos
ao produzir instrumentos personalizados em plena era da tecnologia
Trazidos pelos portugueses
durante a colonização, os violões e as violas -
"descendentes" de um instrumento árabe chamado alaúde
- fincaram raízes na terra do pau-brasil. Sem perder a ligação
com o velho continente, no que diz respeito a formas, cordas e outras
características físicas, ganharam novas tradições.
Entre elas, a adoção de São Gonçalo - reza
a lenda, um exímio músico - como santo protetor dos violeiros,
devoção surgida no Nordeste do país. No processo
de aclimatação aos trópicos, também o método
artesanal de construção dessas caixas melódicas,
chamado lutherie ou luteria - termo derivado da palavra francesa luthier
(fabricante de alaúde) - e passado de geração para
geração nas oficinas, vem se transformando.
A praticidade do mundo moderno leva muitos às lojas de instrumentos,
mas é grande o número de artistas que fazem questão
de encomendar e esperar por "aquela" viola especial - muitos,
até mesmo, chegam a aprender o ofício para fabricar o
próprio instrumento. É o caso do músico e luthier
Levi Ramiro, que começou a tocar violão aos 13 anos e
aprendeu a fabricá-los aos 31. "É um trabalho emocional,
no sentido de que você tem de estar bem para fazer um instrumento,
porque, se houver falha na hora de decidir uma medida, por exemplo,
a qualidade fica comprometida", diz o músico, que prefere
ser chamado de artesão, uma vez que sua especialidade é
o uso de materiais inusitados, como a cabaça e a fórmica.
Levi explica ainda que os antigos fabricantes europeus de violinos chegavam
a amarrar a madeira ao casco dos navios para que, nas viagens, ela sofresse
todas as intempéries da natureza, passando pelas tensões
necessárias para chegar ao ponto certo. "É fundamental
que a madeira não se 'movimente' depois que o instrumento estiver
pronto, para não prejudicar o som", comenta. "Por isso
todo esse processo de amadurecimento, porque um luthier busca um volume
satisfatório e um equilíbrio entre graves, médios
e agudos."
Hoje esse processo de preparação da madeira dispensa as
longas viagens de navio, mas não perdeu o requinte. A prática
comum é deixar a madeira amadurecendo guardada - muitas vezes,
durante anos - na oficina. "A partir de dez anos, em média,
a madeira está pronta para uso. E todo cuidado é pouco",
recomenda Levi. Já as ferramentas usadas na luteria (que dá
conta também da construção dos demais instrumentos
de corda) podem ser compradas, mas alguns artesãos fazem questão
de construí-las. Além de ser parte do cuidado com o ofício,
há também o fato de que nem todas estão disponíveis
para venda em lojas. Um exemplo é o gabarito - ferramenta usada
para verificar e controlar as formas e medidas durante a execução
-, usado para fazer a divisão da escala. Facas especiais e demais
peças para fazer ajustes também costumam sair das próprias
oficinas. Outras ferramentas usadas no ofício são o chamado
ferro de entortar - que o luthier usa para dar forma arredondada à
parte lateral do instrumento -, a miniplaina - instrumento usado para
alisar a madeira e também para dar forma ao leque e ao braço
- e diferentes tipos de lixa.
Trabalho
pessoal
Se tradicionalmente o repasse da habilidade se dava no ambiente familiar
- geralmente de pai para filho -, hoje isso não é mais
regra. O luthier Luiz Carlos Pepineli, por exemplo, embora tenha se
enamorado do violão ouvindo o pai tocar, aprendeu o ofício
com um amigo da família.
"Eu conheci o luthier Tessarin porque ele consertou o instrumento
do meu pai", conta Pepineli. "E as primeiras dicas eu peguei
por telefone." O artesão, que mantém uma oficina
no município de Presidente Bernardes, interior de São
Paulo, conta que o passo seguinte foi investir em "toda a parafernália
de ferramentas" que a prática exige. "Acabei virando
profissional porque meu outro emprego não deu certo", revela.
Ainda segundo Pepineli, quem trabalha sozinho produz em média
dois instrumentos por mês. Pode parecer uma produção
pequena, mas muitos preferem que seja assim. "Não tenho
ajudante porque é um trabalho bem pessoal", conta Pepineli.
"Só é bom se for para fazer as partes pesadas, como
cortar madeira ou algo assim."
Em tempos de valorização da rapidez, há quem venha
tentando unir o artesanato a um processo de produção em
maior escala. É o caso dos proprietários da fábrica
Viola Xadrez, em Catanduva, os irmãos José Renato e José
Eduardo Vieira. A pequena fábrica, que existe há 70 anos
e foi fundada pelo avô deles, conta com quatro profissionais e
consegue produzir até 35 violões por mês. "Mas
70% de nosso trabalho é manual", ressalta Renato.
Para quem se animou em adquirir uma peça personalizada, vale
avisar que é preciso preparar o bolso. Todo esse apuro técnico
tem um preço. Enquanto as lojas cobram de 290 a 1.800 reais por
um violão, um luthier pode pedir até 10 mil reais pelo
trabalho.
Ver Boxes:
Violas
e violões no Sesc
Madeiras nobres
Passo a passo
Violas
e violões no Sesc
Aproveitando
o mês das festas juninas, as unidades do Sesc ofereceram
atividades que aproximaram um pouco mais o público do
universo da viola
Foram mostras
de vídeo, intervenções artísticas,
degustações de comidas típicas, exposições
fotográficas e oficinas. As festas juninas das unidades
do Sesc - além de festejar o mês que reúne
os dias de Santo Antônio, São João e São
Pedro - também ofereceram uma variada uma programação
na qual a viola foi destaque. No Sesc Pompéia, o evento
Caipiras da Garoa trouxe a identidade caipira para a metrópole.
Entre oficinas que ensinaram a confeccionar cestas de palha
e peças de teatro que tinham o universo do campo como
tema, shows da Orquestra Filarmônica de Viola e o músico
e luthier Índio Cachoeira fizeram brilhar o "luar
do sertão" em plena capital. Na unidade São
Caetano, uma exposição fotográfica, parte
da vasta programação do projeto Na Trilha da Viola,
trouxe a público o acervo de fotos do Núcleo de
Cultura Caipira, de Campinas, e o músico e luthier Levi
Ramiro ministrou uma aula-show no dia 20. Shows musicais com
destaque para a viola também foram atração
no Sesc Birigüi, com a Festa Junina - No Ponteio da Vila,
É Festa no Arraial.
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Madeiras nobres
Os especialistas
batem o pé: uma viola ?ou um violão perfeitos
têm de ter:
- a escala
[ou espelho, é a parte da frente do braço, onde
existem traços por onde passam as cordas] e o cavalete
[a madeira que fica presa ao tampo, onde são também
presas as cordas] feitos de ébano, para garantir um melhor
acabamento;
- as faixas laterais e o fundo de jacarandá-da-bahia
ou jacarandá-da-índia;
- o tampo [madeira da parte da frente da viola] de pinho europeu
ou canadense;
- o braço de cedro ou mogno.
O
músico Levi Ramiro questiona o uso exclusivo de madeiras
nobres - mandamento número 1 da luteria tradicional.
Para ele, madeiras como a caixeta, o freijó e o cedro
também dão bons resultados.
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Passo a passo
O luthier
Luiz Carlos Pepineli apresenta algumas etapas da produção
de uma viola
Para
construir o braço, a madeira é cortada em tábuas
e lixada para que fique plana. Depois de feitos os furos, são
encaixadas as tarraxas.
A
curvatura da faixa lateral do instrumento é moldada com
um ferro quente. A temperatura é importante, já
que há perigo de queimar ou rachar a madeira. Em seguida,
a faixa é colocada no braço.
Cola-se
o reengrosso [pregadores] na faixa lateral. O processo serve
para reforçar a caixa. Nesse estágio a viola fica
na fôrma para esteja firme no restante da construção.
Faz-se
um leque com pequenos pedaços de madeira. É o
contato entre o cavalete e esse leque que determinará
o som da viola. É colado o tampo
Costelas
e travessas são colocadas no fundo do instrumento. O
rastillho - feito de osso de boi lixado e cortado em pequenas
barras - é colado no cavalete e irá ajudar na
afinação.
O acabamento é feito com verniz ou goma-laca. Por último,
colocam-se as cordas.
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