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Música

Postado em 16/07/2007

REVISTA E - PORTAL SESCSP

 


 

O ofício da luteria, conhecimento passado de geração para geração, faz a alegria de violeiros e outros músicos ao produzir instrumentos personalizados em plena era da tecnologia

 

Trazidos pelos portugueses durante a colonização, os violões e as violas - "descendentes" de um instrumento árabe chamado alaúde - fincaram raízes na terra do pau-brasil. Sem perder a ligação com o velho continente, no que diz respeito a formas, cordas e outras características físicas, ganharam novas tradições. Entre elas, a adoção de São Gonçalo - reza a lenda, um exímio músico - como santo protetor dos violeiros, devoção surgida no Nordeste do país. No processo de aclimatação aos trópicos, também o método artesanal de construção dessas caixas melódicas, chamado lutherie ou luteria - termo derivado da palavra francesa luthier (fabricante de alaúde) - e passado de geração para geração nas oficinas, vem se transformando.
A praticidade do mundo moderno leva muitos às lojas de instrumentos, mas é grande o número de artistas que fazem questão de encomendar e esperar por "aquela" viola especial - muitos, até mesmo, chegam a aprender o ofício para fabricar o próprio instrumento. É o caso do músico e luthier Levi Ramiro, que começou a tocar violão aos 13 anos e aprendeu a fabricá-los aos 31. "É um trabalho emocional, no sentido de que você tem de estar bem para fazer um instrumento, porque, se houver falha na hora de decidir uma medida, por exemplo, a qualidade fica comprometida", diz o músico, que prefere ser chamado de artesão, uma vez que sua especialidade é o uso de materiais inusitados, como a cabaça e a fórmica. Levi explica ainda que os antigos fabricantes europeus de violinos chegavam a amarrar a madeira ao casco dos navios para que, nas viagens, ela sofresse todas as intempéries da natureza, passando pelas tensões necessárias para chegar ao ponto certo. "É fundamental que a madeira não se 'movimente' depois que o instrumento estiver pronto, para não prejudicar o som", comenta. "Por isso todo esse processo de amadurecimento, porque um luthier busca um volume satisfatório e um equilíbrio entre graves, médios e agudos."
Hoje esse processo de preparação da madeira dispensa as longas viagens de navio, mas não perdeu o requinte. A prática comum é deixar a madeira amadurecendo guardada - muitas vezes, durante anos - na oficina. "A partir de dez anos, em média, a madeira está pronta para uso. E todo cuidado é pouco", recomenda Levi. Já as ferramentas usadas na luteria (que dá conta também da construção dos demais instrumentos de corda) podem ser compradas, mas alguns artesãos fazem questão de construí-las. Além de ser parte do cuidado com o ofício, há também o fato de que nem todas estão disponíveis para venda em lojas. Um exemplo é o gabarito - ferramenta usada para verificar e controlar as formas e medidas durante a execução -, usado para fazer a divisão da escala. Facas especiais e demais peças para fazer ajustes também costumam sair das próprias oficinas. Outras ferramentas usadas no ofício são o chamado ferro de entortar - que o luthier usa para dar forma arredondada à parte lateral do instrumento -, a miniplaina - instrumento usado para alisar a madeira e também para dar forma ao leque e ao braço - e diferentes tipos de lixa.

 

Trabalho pessoal
Se tradicionalmente o repasse da habilidade se dava no ambiente familiar - geralmente de pai para filho -, hoje isso não é mais regra. O luthier Luiz Carlos Pepineli, por exemplo, embora tenha se enamorado do violão ouvindo o pai tocar, aprendeu o ofício com um amigo da família.
"Eu conheci o luthier Tessarin porque ele consertou o instrumento do meu pai", conta Pepineli. "E as primeiras dicas eu peguei por telefone." O artesão, que mantém uma oficina no município de Presidente Bernardes, interior de São Paulo, conta que o passo seguinte foi investir em "toda a parafernália de ferramentas" que a prática exige. "Acabei virando profissional porque meu outro emprego não deu certo", revela. Ainda segundo Pepineli, quem trabalha sozinho produz em média dois instrumentos por mês. Pode parecer uma produção pequena, mas muitos preferem que seja assim. "Não tenho ajudante porque é um trabalho bem pessoal", conta Pepineli. "Só é bom se for para fazer as partes pesadas, como cortar madeira ou algo assim."
Em tempos de valorização da rapidez, há quem venha tentando unir o artesanato a um processo de produção em maior escala. É o caso dos proprietários da fábrica Viola Xadrez, em Catanduva, os irmãos José Renato e José Eduardo Vieira. A pequena fábrica, que existe há 70 anos e foi fundada pelo avô deles, conta com quatro profissionais e consegue produzir até 35 violões por mês. "Mas 70% de nosso trabalho é manual", ressalta Renato.
Para quem se animou em adquirir uma peça personalizada, vale avisar que é preciso preparar o bolso. Todo esse apuro técnico tem um preço. Enquanto as lojas cobram de 290 a 1.800 reais por um violão, um luthier pode pedir até 10 mil reais pelo trabalho.

 

 

 

 

 

Ver Boxes:

Violas e violões no Sesc
Madeiras nobres
Passo a passo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Violas e violões no Sesc

Aproveitando o mês das festas juninas, as unidades do Sesc ofereceram atividades que aproximaram um pouco mais o público do universo da viola

Foram mostras de vídeo, intervenções artísticas, degustações de comidas típicas, exposições fotográficas e oficinas. As festas juninas das unidades do Sesc - além de festejar o mês que reúne os dias de Santo Antônio, São João e São Pedro - também ofereceram uma variada uma programação na qual a viola foi destaque. No Sesc Pompéia, o evento Caipiras da Garoa trouxe a identidade caipira para a metrópole. Entre oficinas que ensinaram a confeccionar cestas de palha e peças de teatro que tinham o universo do campo como tema, shows da Orquestra Filarmônica de Viola e o músico e luthier Índio Cachoeira fizeram brilhar o "luar do sertão" em plena capital. Na unidade São Caetano, uma exposição fotográfica, parte da vasta programação do projeto Na Trilha da Viola, trouxe a público o acervo de fotos do Núcleo de Cultura Caipira, de Campinas, e o músico e luthier Levi Ramiro ministrou uma aula-show no dia 20. Shows musicais com destaque para a viola também foram atração no Sesc Birigüi, com a Festa Junina - No Ponteio da Vila, É Festa no Arraial.

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Madeiras nobres

Os especialistas batem o pé: uma viola ?ou um violão perfeitos têm de ter:

- a escala [ou espelho, é a parte da frente do braço, onde existem traços por onde passam as cordas] e o cavalete [a madeira que fica presa ao tampo, onde são também presas as cordas] feitos de ébano, para garantir um melhor acabamento;
- as faixas laterais e o fundo de jacarandá-da-bahia ou jacarandá-da-índia;
- o tampo [madeira da parte da frente da viola] de pinho europeu ou canadense;
- o braço de cedro ou mogno.

O músico Levi Ramiro questiona o uso exclusivo de madeiras nobres - mandamento número 1 da luteria tradicional. Para ele, madeiras como a caixeta, o freijó e o cedro também dão bons resultados.

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Passo a passo

O luthier Luiz Carlos Pepineli apresenta algumas etapas da produção de uma viola

Para construir o braço, a madeira é cortada em tábuas e lixada para que fique plana. Depois de feitos os furos, são encaixadas as tarraxas.

 

 

 

 

A curvatura da faixa lateral do instrumento é moldada com um ferro quente. A temperatura é importante, já que há perigo de queimar ou rachar a madeira. Em seguida, a faixa é colocada no braço.

 

 

 

 

 

Cola-se o reengrosso [pregadores] na faixa lateral. O processo serve para reforçar a caixa. Nesse estágio a viola fica na fôrma para esteja firme no restante da construção.

 

 

 

 

 

Faz-se um leque com pequenos pedaços de madeira. É o contato entre o cavalete e esse leque que determinará o som da viola. É colado o tampo

 

 

 

 

 

Costelas e travessas são colocadas no fundo do instrumento. O rastillho - feito de osso de boi lixado e cortado em pequenas barras - é colado no cavalete e irá ajudar na afinação.

 

 

 

 

 

O acabamento é feito com verniz ou goma-laca. Por último, colocam-se as cordas.

 

 

 

 

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