NEI LOPES

O
músico e pesquisador comenta o preconceito racial no Brasil e
fala de como se tornou referência nas discussões sobre
negritude
Num belo dia
do ano de 1981, o sambista Nei Lopes decidiu que estava na hora de teorizar
todo o seu conhecimento empírico de samba, vida no morro e relações
raciais, e iniciou uma trajetória de intensa leitura sobre os
assuntos. "Comecei a ler de uma maneira compulsiva, comprava muitos
livros, fazia anotações e fichas", afirma na conversa
que teve com a Revista E. Não abandonou a música, mas
acumulou aos títulos de músico e sambista também
o de pesquisador e escritor. A dobradinha vem rendendo frutos. São
17 livros publicados - incluindo algumas ficções e um
dicionário da língua banto - e uma obra musical que inclui
seis discos solos e mais outras tantas composições e parcerias.
As últimas com os jovens do Quinteto Em Branco e Preto. Taurino
de 9 de maio de 1942, nascido em Irajá, no Rio de Janeiro, o
músico conta que não acredita na rivalidade entre o samba
paulistano e o carioca, e afirma que há tempos as escolas de
samba deixaram de representar as comunidades. "Quem participa são
a classe média e os turistas", declara. É defensor
de cotas para negros nas universidades e orgulha-se de ter seu nome
citado como fonte mais de 300 vezes no Dicionário Houaiss da
Língua Portuguesa. A seguir, trechos da entrevista, concedida
no camarim do show apresentado no Sesc Pinheiros.
Comentou-se que no Carnaval deste ano as escolas de samba cometeram
alguns equívocos na hora de falar da escravidão no Brasil.
Você acredita que hoje exista uma vontade de reescrever o assunto
ou essa história é fruto de desconhecimento sobre a questão?
Eu não vejo hoje a escola de samba como uma instância legítima
para discutir essas questões. O carnavalesco, muito apropriadamente,
é um fantasista e está muito a fim de efeitos cênicos.
Por isso acho que é raro encontrar um carnavalesco com uma proposta
política, por assim dizer. Os únicos enredos efetivamente
políticos que conheço, uns dois ou três, foram os
de Vila Isabel: Quizomba [Quizomba, Festa da Raça - que deu o
título de campeã à escola em 1988] e Direito É
Direito [que lhe rendeu o quarto lugar em 1989]. Fora isso, o carnavalesco
está sempre buscando efeitos, e, quanto mais sensacionalismo
e mais possibilidades de criar coisas fantásticas, melhor para
ele trabalhar. E o que aconteceu neste ano foi exatamente isso. Há
uma certa dose de ingenuidade em relação à história.
Isso foi discutido nos jornais, até mesmo escrevi um artigo em
relação a esse maniqueísmo que o carnavalesco usa.
Por exemplo, no caso da Beija-Flor, que cantou Áfricas: do Berço
Real à Corte Brasiliana, a escola apontou a África como
uma coisa maravilhosa, quando a gente sabe que houve uma parcela grande
de culpa dos próprios africanos na questão da escravização.
O que eu escrevi nesse artigo é que, por outro lado, está
havendo hoje uma resposta dos racistas, e essa resposta está
sendo muito calcada na tônica de culpar exclusivamente os africanos
pela tragédia da escravidão. Ou seja, nem tanto ao mar
nem tanto à terra. Mas não dá para dizer que a
África foi uma maravilha, que todos os governantes africanos
foram heróicos.
Você falou
no seu livro Partido Alto: Samba de Bamba [Pallas Editora, 2005] sobre
a "desafricanização" do samba. Mas aí
a questão que surge é a seguinte: desde sua origem, o
samba já não seria mesmo criação de um "mundo
urbano"?
Claro, o samba que a gente conhece hoje é um produto urbanizado,
e naturalmente já fruto de várias outras influências,
inclusive da própria musicalidade européia. Mas o que
eu queria dizer é que houve uma resposta a isso, uma retomada
do caminho africano, não só no samba como em outras vertentes
da música. E a indústria cultural, pela sua própria
composição, pelo fato de ser dirigida de fora para dentro,
não permite que isso ocorra. Por exemplo, há uma vertente
de meu trabalho que é muito voltada para a denúncia do
racismo e para a explicação de certos fatos históricos,
mas raramente consigo gravar esse tipo de música. A parte mais
conhecida de meu repertório são as crônicas de cotidiano,
as coisas mais humorísticas e as mais líricas - principalmente
essas. Como a gente vive um momento de extrema colonização
- porque essa globalização em mão única
acaba redundando na colonização -, sabe-se que hoje a
música no planeta inteiro tem o mesmo playback, só é
cantada em línguas diferentes, mas o playback é o mesmo.
Se você zapear a TV a cabo, vai ver que o cara que canta hip hop
em Portugal soa igual ao que está cantando na Indonésia.
E essa orientação colonizadora de globalização
de mão única não admite discussão de questões
polêmicas. Então, o que caracteriza a música em
escala planetária hoje? O amor, que é uma coisa universal.
Basicamente isso: a canção de amor.
O que o samba
tem para que todo mundo o queira, mas ao mesmo tempo com o intuito de
"modernizá-lo"?
Acho que é a identidade brasileira no seu sentido mais forte.
Quando o Brasil quer se mostrar para fora, bota o samba de cara, porque
é o que o identifica logo. Mas na cabeça dessa produção
cultural que está aí - essa é a minha opinião
- o samba é velho, "juventude não gosta de samba",
"esse tipo de música tem sua história ligada ao gueto"
etc. Ou seja, o samba é preto, velho e pobre. E eles pensam que
não pode ser assim, então querem pintá-lo de branco.
Mas não se pode fugir da questão da identidade, o samba
é o traço mais marcante da identidade brasileira.
E o pagode, por exemplo, você acha que foi uma mutação
do samba ou é uma descaracterização mesmo?
A questão desse pagode, chamado de neopagode ou pagode brega,
é realmente uma agressão da parte das gravadoras. Algo
como "vamos enquadrar o samba dentro do pop". Uma vez eu estava
num hotel vendo televisão e apareceu um grupo cantando em playback,
com aquele passinho e tudo mais. Terminou a apresentação
e logo em seguida entrou uma banda de rock. Era a mesma coisa! A música
era a mesma, só modificaram a levada. Isso ficou claro para mim,
houve uma interferência das gravadoras no sentido de levar o samba
para esse "esqueminha", e isso é uma completa descaracterização.
Mas o samba tem vitalidade, uma capacidade de dar a volta por cima,
no meu entender. Em todo momento estão surgindo formas novas.
Observo que as gravadoras estão sempre tentando renovar o samba,
aí tentam fazer fusões, misturam com hip hop. Mas aí
surge um rapaz chamado Leandro Sapucaí - que tem um passado dentro
do samba, até conheço a família dele -, e que está
fazendo um samba, até com uma pitada de hip hop, mas que não
deixa de ser samba. A própria instrumentação que
ele usa na apresentação não deixa de ser samba,
tem violão de sete cordas, cavaquinho, mas tem um momento lá
que ele manda um rap.
O que você
acha do fato de hoje a música brasileira ser a mais vendida no
mercado nacional?
A gente tem de procurar estabelecer uma diferença entre o que
é música brasileira e o que é música feita
no Brasil. Veja esses grupos de rock... Faça-me o favor! Eles
têm todo o direito de fazer o que queiram, mas, dizer que é
música brasileira, isso não dá. Só porque
estão cantando em português? Aí não. Música
brasileira para mim é outra coisa.
E o que é
música brasileira para você?
É a música que tem o DNA brasileiro. Por exemplo, por
que o rap? O Brasil já tinha seu repente, que é o coco-de-embolada,
uma coisa muito mais elaborada do que o rap. E já existia, então
por que ter rap? Porque rapazes de grandes cidades, como Rio e São
Paulo, não conhecem esse ritmo brasileiro. O coco-de-embolada
é algo muito mais sofisticado do que o rap, pega um Caju e Castanha,
por exemplo, e bota ao lado de um rapper e vai ver o que vai acontecer.
Mas
o que você acha da cultura hip hop?
Acho que é o chamado protesto mentiroso, o protesto da moda,
vamos dizer assim. Aí vem a questão de que "o samba
é alienado, não protesta". Mas a verdade é
que o samba tem um lado muito crítico, só que se utiliza
da ironia. Acho que surte muito mais efeito se você chegar no
palco e mandar um samba sacaneando o sistema com graça do que
se você chegar no palco com a cara emburrada, em geral com o microfone
colado na boca, e ficar só na "atitude". Quando um
compositor como Barbeirinho do Jacarezinho, fornecedor habitual do Zeca
Pagodinho, manda: "Você sabe o que é caviar? Nunca
vi nem comi, eu só ouço falar". Pô, isso é
uma cacetada. Ou o samba da parabólica, que fala de uns caras
que têm uma antena dessas no barraco e explicam como a conseguiram:
"Mas a parabólica foi trazida por um temporal, eu achei
no mato e botei no barraco na cara-de-pau". Tem muito disso, mas
as gravadoras quase não gravam esse tipo de produção.
Vamos falar um pouco sobre seus livros. Quais são suas fontes
de pesquisa e como você reúne material?
Não tenho nada muito ortodoxo, é muito na base da intuição.
Seria melhor lhe contar como isso começou. De 1980 para 1981,
organizou-se um grupo de pessoas ligadas à religião com
quem me relacionava, como o Muniz Sodré, que hoje é diretor
da Biblioteca Nacional. Então houve um número especial
de uma revista chamada Vozes que foi sobre a cultura negra - não
sei se essa revista ainda existe, mas era uma publicação
muito boa. Aí me pediram que escrevesse sobre o meu universo
de atuação mais específico, que era a escola de
samba. Com isso, fiz um texto sobre o que estava acontecendo com a escola
de samba naquele momento, ou seja, o espetáculo em detrimento
da ligação com as raízes comunitárias. Só
que a escola de samba nasceu para legitimar suas comunidades, isso era
a primeira motivação. Então, escrevi um artigo
sobre essa questão, mostrando o que estava acontecendo e fazendo
uma prospecção sobre o que poderia acontecer - exatamente
o que está acontecendo agora. Bem, o Muniz Sodré havia
publicado um livro chamado Samba, o Dono do Corpo - pela Editora Codecri,
que era a editora do Pasquim -, e perguntou se eu gostaria de estender
o meu artigo para fazer um livrinho. Eu topei a parada e reescrevi o
artigo em forma de um pequeno ensaio, que deu um livrinho de cento e
poucas páginas. Foi aí que as coisas começaram.
E aconteceu, em 1981 também, de eu perder um filho tragicamente.
Geralmente, nessas situações de choques e traumas, as
pessoas procuram derivativos, fugas. Poderia ter sido o álcool
ou uma série de coisas, mas não foi. Felizmente a minha
fuga se deu com a obsessão pela leitura. Comecei a ler de uma
maneira compulsiva, comprava muitos livros, fazia anotações
e fichas. Depois de um tempo, já estava escrevendo outro livro.
Vim nesse embalo e já tenho 17 livros publicados e mais três
no prelo. Com o tempo fui me organizando, tinha uma biblioteca pequena
e comecei a freqüentar muitos sebos. Comprei muita coisa, inclusive
alguns livros raros. Tenho obsessão por dicionários, então
comecei também a fazer dicionários. Já publiquei
três e tenho dois prontos, sendo que um está no prelo e
o outro, ainda em produção, sairá pela Record.
Você falou
de obsessão por dicionários...
Dicionários de línguas africanas, por exemplo, que eu
tenho aos montes, encomendava-os para amigos que viajavam, e fui construindo
meu acervo dessa forma. Também retirei coisas interessantes dos
jornais. Recortava coisas que estavam dentro da minha área de
interesse e organizava tudo. Quer dizer, houve um trabalho de organização,
e isso me facilitou muito. Durante um bom tempo fui acumulando esse
acervo que acabou redundando, em 2004, em um calhamaço que se
chama Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana [Editora
Selo Negro]. Além disso, tenho um tremendo banco de dados que
eu continuo alimentando e corrigindo muita coisa. A enciclopédia
mesmo já está na segunda edição, mas não
acredito que a gente consiga fazer uma próxima edição
tão cedo. Pelo menos, os dados para complementá-la e corrigi-la
estão todos nesse banco, que tem me valido para todas as outras
coisas que estou fazendo hoje, até mesmo ficção.
Como foi a experiência
de ingressar na ficção?
Foi muito boa. Sou muito bem-humorado e brincalhão, e a primeira
incursão na ficção foi com um livro chamado Casos
Crioulos [Edições Folha Seca, 1987], no qual conto coisas
engraçadas passadas no universo do samba. Daí chegou um
momento em que decidi escrever contos sobre o universo da escola de
samba, dos morros - que eu freqüentei durante muito tempo -, sob
outro viés, o da tragédia. Então, escrevi 20 contos
e mais umas outras narrativas menores, botei o nome de 20 Contos e uns
Trocados, que a Record publicou no ano passado. Mas aí minha
mulher disse: "Não descanso enquanto você não
escrever um romance". Então, escrevi um no ano passado,
tomei gosto e escrevi outro. Não é coisa grande, mas já
está no prelo também, vai sair pela editora Língua
Geral. O outro romance que permanece inédito está dentro
desse universo também. Esse livro, que ainda não está
negociado, se chama Os Genes. Tenho um neto que é portador de
uma doença incurável, por enquanto, chamada anemia falciforme,
uma doença típica de afrodescendentes. Aí escrevi
uma história na qual há uma família com uma criança
que sofre desse mal. É uma família mista, o rapaz é
negro e a mulher branca. Mas a família dela é toda ciosa
de suas raízes européias, e o racismo come solto. Eles
põem a culpa no genro, quer dizer, uma culpa velada: "Está
vendo, essa criança tem esse problema porque é filha desse
negro". Mas aí a trama leva o leitor a descobrir que a família
européia tem uma ancestralidade africana, e foi de lá
que veio a doença.
A ponta dessa
trama, na qual a culpa é meio velada, diz respeito a como é
o racismo no Brasil, não?
O nosso racismo é esse, daí o grande problema, porque
ele raramente se mostra. Só se mostra, e o que está acontecendo
agora é isso, quando o negro começa a incomodar. Hoje,
o Elio Gaspari - que publica seus textos no Globo [O Globo, jornal carioca]
e na Folha [jornal Folha de S.Paulo] - escreveu exatamente sobre isso.
Ele disse que, enquanto o negro está "no seu lugar",
na sua subalternidade, está tudo certo, e é essa a grande
característica do racismo brasileiro. É o caso da negra
que é empregada doméstica e o patrão branco diz:
"Lá em casa ninguém tem esse problema [racismo],
a nossa empregada come até na mesa com a gente". Mas quando
começa a competição, e isso está acontecendo
hoje no âmbito universitário, isso mexe legal no racismo
brasileiro. O racismo brasileiro se esconde, mas ele aflora nesses momentos
de paroxismos. E a grande dificuldade de combatê-lo é essa,
por causa dessa coisa insidiosa. Se você tem um confronto aberto,
mesmo que seja no plano das idéias, aí você tem
como combater. Mas até hoje tem gente que bate o pé e
diz que racismo não existe no Brasil, falam que é coisa
dos Estados Unidos e da África do Sul - mas a gente sabe que
não é assim.
O que você
acha do sistema de cotas para negros na universidade?
Eu sou a favor! Acho que se tem de fazer alguma coisa, é um assunto
que não tem mais como esperar. Tem gente que fala que a solução
é investir no ensino básico. Mas isso vai ter resultado
daqui a quantas gerações? Então, tem de tentar
alguma coisa agora. E a gente sabe que as políticas de ação
afirmativa não são permanentes, são coisas para
resolver emergencialmente uma situação. E o que é
muito importante nessa história das cotas é a questão
de preparar a escola brasileira para receber o negro também,
porque as universidades não têm estrutura para compreender
a questão negra em sua essência. Compreender, por exemplo,
o que é uma auto-estima dilacerada e vilipendiada durante tanto
tempo. É preciso que as pessoas entendam o que é a cabeça
de um negro. Há uma expressão que define bem o nosso psiquismo:
síndrome da senzala. Até hoje tenho uma certa preocupação
de entrar em certos ambientes, não sei como vou ser recebido
e como vão me ver.
Nesse seu lado
de pesquisador, você se aproximou da academia? Começou
a dialogar com eles? Quer dizer, seus livros chegam lá?
Quando chegam, causam muito incômodo. Em 1988, publiquei o Dicionário
Banto do Brasil [Novo Dicionário Banto do Brasil, Pallas Editora,
2003]. Havia me chamado a atenção a quantidade de vocábulos
usados no dia-a-dia que são originários dessa área
de Angola, Congo, Moçambique. Palavras como tamanco, carimbo,
marimbondo, camundongo, bunda, tanga, sunga, mochila. Aí fiz
um dicionário etimológico. Rapaz, tem uma pessoa, a grande
autoridade nessa área, que ficou muito incomodada quando escrevi
esse dicionário. Chegou até a escrever em uma publicação
dizendo que havia gente sem qualificação e amadora se
metendo a fazer dicionário e que os estudos africanos no Brasil
estavam virando uma bagunça; também disse que a etimologia
é uma área que dá margem a muita fantasia. Fiquei
muito chateado, mas botei minha viola no saco porque quem estava falando
era uma autoridade.
Mas e o dicionário?
Afinal já estava nas livrarias...
Então, mas aí quando fiz o livro Casos Crioulos, meu amigo
editor entregou os originais ao Antônio Houaiss [autor do Dicionário
Houaiss da Língua Portugesa] para ele escrever uma apresentação,
visando a valorizar a edição. E esse editor levou-me para
conhecê-lo. Quando o meu Dicionário Banto saiu, dei um
exemplar a ele. E ele não se manifestou. Mas quando a lenha caiu
em cima de mim, ele me mandou um bilhete - eu não tenho cofre
em casa, mas se tivesse esse bilhete estaria dentro - com um timbre
da Academia Brasileira de Letras e que, com a letra tortuosa, difícil
de ler, dizia: "Meu amigo Nei, você se incomodaria de me
conseguir mais um exemplar do seu dicionário?". Um tempo
depois, ele faleceu. Só que tenho uma amiga que estava trabalhando
na equipe do Dicionário Houaiss. Aí perguntei se por acaso
o meu dicionário estava na bibliografia. Ela respondeu: "O
quê? Seu dicionário ficava na mesa do chefe!". Depois
disso fiquei naquela expectativa de ver o Dicionário Houaiss
pronto. Quando soube que havia sido lançado, corri para comprar
aquele catatau em uma livraria de um shopping lá em Vila Isabel.
Sentei-me nervoso em um banquinho para olhar se na bibliografia constava
meu livro. Não encontrei, foi uma ducha de água fria.
Levei o livro para casa e, quando fui ver mais calmamente o dicionário,
vi que a bibliografia técnica ficava na frente, e lá estava
o meu dicionário. Aí comecei a folhear procurando palavras
desse universo, e constava o crédito: "Segundo Nei Lopes".
Citação
no verbete?
No mínimo, umas 350 vezes. Lavou a alma. Depois disso, chamaram-me
para participar de um seminário sobre comunicação
na UERJ [Universidade Estadual do Rio de Janeiro], e contei essa história.
A pessoa que havia me criticado ficou sabendo de tudo isso. Então,
houve um encontro dos povos bantos aqui no Memorial da América
Latina, há uns três anos. Essa pessoa estava lá
- naturalmente pensando que eu não soubesse direito do babado
todo, do fuxico -, e fez um elogio no plenário dizendo: "Grande
trabalho do professor Nei Lopes". Veja, até me chamou de
professor, trouxe-me para o universo dele. Quer dizer, foi preciso que
houvesse esse reconhecimento por parte do Houaiss. A primeira edição
desse dicionário foi feita pela prefeitura do Rio de Janeiro.
Era um negócio meio capenga, meio malfeitinho, aquela coisa de
funcionário público. Aí demos uma mexida, melhoramos
algumas coisas, tiramos coisas que pudessem dar margem a controvérsia
e lançamos pela Pallas Editora com o nome de Novo Dicionário
Banto do Brasil. Então, colocamos na capa: "Contendo cerca
de 350 hipóteses acolhidas pelo Dicionário Houaiss".
Aí acabou o papo.
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