Postado em 01/11/2005
por Lídia Tolaba
Adentro-me em antigas canções e melodias, pela fascinação que a infância exerce na minha vida. A memória incandescente daquela livre percepção da palavra familiar, sua entonação, seu ritmo, sua intensidade, me dá a certeza de que a música é um dos bens mais preciosos na formação de todo ser humano. Desde os primeiros anos de vida e muitas vezes bem antes, no ventre materno, de alguma maneira começa nosso processo de musicalização.
Para fazer música, a única coisa que o indivíduo precisa é estar vivo. Não precisa saber ler, nem adquirir materiais, nem sequer sair de casa. Basta abrir a boca e cantar, bater palmas ou os pés, assobiar ou murmurar, que estará fazendo música. Prática que a criança desenvolve sozinha ou com amigos e em todas suas versões, vocal, instrumental e de movimento, e o melhor de tudo: faz brincando.
O que a criança ouve penetra e educa, às vezes sem possibilidade de escolha. Já a cultura musical torna-se possível pelo processo de assimilação-acomodação sensorial, e este só pode ser produto da educação. Só assim podemos evitar o conformismo perante a invasão musical, ajudá-la a apurar o ouvido e a trilhar novos caminhos.
Cada vez mais, músicos especializados em público infantil têm se preocupado em lançar produtos com maior qualidade, tanto na concepção melódica e arranjos, como na poética, recorrendo a uma linguagem atual, mais perto do mundo infantil, como Helio Ziskindi, Sandra Peres, Paulo Tatit, Tata Fernandes, entre outros.
Saber em que se baseiam as opiniões das crianças, os critérios de escolha ou de rechaço, referências do que gostam, e por que, são elementos indispensáveis para conseguir um bom diálogo musical. Aqueles que conseguem, por intermédio de suas obras, criando ou interpretando, formam um público cada vez mais exigente. Estabelecer um vínculo entre a sensibilidade e a atividade, trabalhar com o imaginário da criança, adequar melodias a imagens, enfim, criar música de qualidade é o mínimo que devemos exigir de quem lida com produção musical para crianças.
O papel do Sesc, nesse sentido, consiste precisamente em contribuir para despertar no público infantil, de forma abrangente e perdurável, a necessidade de reconhecimento e apropriação, como condição para desenvolver a capacidade crítica. Entre as múltiplas experiências musicais encontram-se os centros de música do Sesc Consolação e Vila Mariana, em que crianças e adultos têm seu primeiro contato com os instrumentos, com a dificuldade de seu manejo e a alegria de produzir o som. E também projetos experimentais dos quais tive o prazer de participar da concepção, como uma ópera lúdica, com músicos, contadores de histórias e técnicos, numa proposta de criação coletiva em que o público era também protagonista do espetáculo; e a divertida série O Som é Assim, mistura de aula e espetáculo, com conceitos básicos sobre a sonoridade dos instrumentos, realizada no Sesc Ipiranga em 2002.
Fácil é constatar que o público infantil é ávido e facilmente permeável às manifestações artísticas e, por isso, considero um erro subestimá-lo. Ele tem critério, é muito solicitado sonoramente, sabe ouvir e sabe criticar. Sabe escutar e sabe propor.
Em vista de tantas possibilidades de atuação, a busca de ações para aprimorar o público infantil é indefinida, não tem receitas infalíveis, senão opções e direções que podem ser mais ou menos fecundas com relação ao que mais importa: fazer da música um elemento integrante da personalidade e uma exigência permanente para desfrutar da vida. Enfim, vivenciar a fascinante aventura de ouvir música.