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Encontros

Postado em 01/11/2005

por Clóvis Rossi

 

 

O jornalista Clóvis Rossi nasceu em 1943 na cidade de São Paulo e traz na bagagem uma história de mais de 40 anos de profissão. Nessa trajetória, já passou por veículos como O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e Folha de S.Paulo, no qual assina, desde 1987, uma coluna sobre política na página de Opinião, depois de já ter sido correspondente em Buenos Aires e Madri. Segundo conta, já escreveu sobre os mais diversos assuntos da política e da economia nacionais, “desde planos econômicos que deram certo até os muitos que não deram, passando pelo golpe de 64 até a redemocratização e todas as eleições seguintes”. Entretanto, seu currículo só veio a se completar neste ano, quando ele cobriu a sucessão papal – “a única coisa que me faltava em termos de grande reportagem”. Descontraído, de linguagem direta e pontos de vista bem claros, Clóvis Rossi conversou com o Conselho Editorial da Revista E sobre o papel da imprensa nas grandes crises do País, os problemas de formação das novas gerações de profissionais e relembrou algumas das muitas histórias que coleciona. A seguir, os principais trechos.

 

Eu tenho 42 anos de jornalismo, 25 de Folha de S.Paulo. Nesse tempo, tudo o que podia fazer sobre assuntos nacionais eu já fiz – desde planos econômicos que deram certo até os muitos que não deram, passando pelo golpe de 64 até a redemocratização e todas as eleições seguintes. Não creio que haja muitas novidades. A única coisa que me faltava em termos de grande reportagem era a morte de um papa e a eleição de outro, o que fiz neste ano. Dei-me um pouco de folga e estou cuidando apenas da coluna [na Folha], nestes últimos dois ou três meses. O que não deixa de ser um trabalho de cão, porque acompanhar essa crise que o Brasil vive é um sacrifício, é muito estressante. Há uma porção de fatos e de evidências, mas nunca se chega a todos os “batons na cueca” – jargão que passou a ser usado diante de algo contundente. Ou seja, você tem sempre de andar no fio da navalha para evitar cometer uma injustiça com alguém, sem deixar de fazer as críticas e os comentários necessários relativos à crise.

 

É também uma dificuldade adicional o fato de que a gente está vivendo a primeira crise on-line da história da República. Tudo é em tempo real, seja na internet, seja nos noticiários da TV a cabo. Sobra muito pouco em termos de novidade para os jornais impressos do dia seguinte. Eu mesmo, por obrigação e não por gosto, acompanho toda essa cobertura, assisto aos vários jornais, tipo Globo News, Band News etc., além dos noticiários on-line. No dia seguinte, quando tenho de fazer minha coluna, há muito pouco que interessa para ser lido. O que sobra para o jornalismo impresso basicamente são as colunas de opinião. E estão quase todas elas muito focadas nessa crise. Você procura um pouco confrontar sua opinião com a dos outros e analisar como cada um enxerga os fatos, o que não deixa de ser um exercício interessante, porque, embora o fato seja o mesmo – a maioria dos jornalistas tem acesso às mesmas informações –, alguns colunistas vêem coisas diferentes.

 

Mas, como disse, é um trabalho estressante, e também por causa do patrulhamento constante dos leitores, especialmente devido a esse “Fla-Flu” infernal [referência às clássicas torcidas rivais dos times cariocas Flamengo e Fluminense] em que se transformou a política brasileira, ao menos para a maior parte do público: PT versus PSDB. E a indigência do raciocínio que diz que, se você critica o governo do PSDB, você é petista, se você critica o governo do PT, você é tucano, e a discussão fica nisso. Essa coisa binária, indigente, que ignora outras alternativas, inclusive a alternativa da independência, que, aliás, é a minha preferida.

 

 

Alternativa da independência

Assim que voltei de Buenos Aires, onde trabalhei como correspondente também para a Folha, a primeira matéria que me encomendaram foi um perfil do José Serra. Ele tinha acabado de sair da Secretaria de Planejamento de São Paulo [de 1983 a 1986, no governo de Franco Montoro] para disputar a eleição de 1986. O Serra trabalhou anos na Folha como editorialista e é amigo do Otávio Frias pai. Fiquei num impasse. Se falasse mal dele, brigaria com os donos do jornal, se falasse bem, brigaria com os fatos, eventualmente – afinal, não dá para fazer um perfil que não seja minimamente crítico, ainda mais num jornal que se pauta pelo jornalismo crítico. Por azar, ainda, geralmente quando você vai ouvir as pessoas, os que falam bem assumem, já os que falam mal pedem para não colocar o nome. E como você vai falar mal de alguém com informações off the record, como se diz, ou seja, não gravadas, não creditadas?

 

Sempre que se faz um perfil, não se pode deixar de ouvir o perfilado. Fui ouvir o Serra. E ele me disse que eu podia escrever o que quisesse, que só não dissesse que ele era o Delfim Netto do PMDB – apelido e partido dele na época. Eu concordei, não era essencial à matéria. O perfil saiu numa página inteira, e o Otávio Frias Filho, diretor de redação, colocou um pequeno boxe no meio cujo título era: “José Serra é o Delfim Netto do PMDB”. Boxe não assinado, no meio de uma página toda minha. Apesar de ter ficado muito irritado pelo fato de que eu poderia perder uma fonte muito importante com isso, o caso mostrou que o jornal tinha absoluta independência, mesmo com um amigo da casa. E para quem tinha vindo do Estadão [O Estado de S. Paulo], onde os amigos são sempre poupados e os inimigos eram criticados até quando tinham razão, trabalhar num jornal onde você pode criticar o amigo do dono, mas amigo mesmo – o Serra trata o Frias como segundo pai ou algo assim –, deixa você tranqüilo. Se foi assim com esse será com qualquer um.

 

 

Discurso involuntário

Falar do meu começo no jornalismo é falar da pré-história do jornalismo. Ligado a isso, eu me lembro que acabei, involuntariamente, fazendo o primeiro comício contra o golpe de 64, nas seguintes circunstâncias: eu trabalhava na sucursal de São Paulo do Correio da Manhã, jornal do qual os mais jovens nem se lembram, mas que apareceu com outro nome na novela Senhora do Destino – a personagem da Marília Gabriela, inclusive, fazia uma alusão direta a Niomar Muniz Sodré Bittencourt, dona do jornal. Pois bem, na época a artista plástica Djanira, amiga de dona Niomar, tinha sido presa. E, depois de solta, a pintora foi para sua casa de praia em Paraty – àquela época, um lugar quase inacessível. Estamos em abril de 1964. E me mandaram para lá – eu, garoto, tinha acabado de começar – para entrevistar a amiga da dona do jornal. Fui, entrevistei a mulher, ela falou de tortura, ditadura, direitos humanos etc. Anoiteceu e, na hora de mandar o material para o jornal, não tinha telex, fax, nada, e naquela casa nem sequer tinha telefone. Tinha um só, em uma outra casa, mas que estava sem luz. Pois eu fui até lá, pus aquele telefone grande, preto, pesado, na beira da janela para ler, à luz do poste da rua, minhas anotações. A ligação estava ruim, então comecei a gritar com o sujeito do outro lado da linha: “Tortura”, “direitos humanos” etc. Começou a juntar gente embaixo da janela e o datilógrafo do outro lado ainda mandando: “Fala mais alto, seu foca desgraçado!”. E eu gritava cada vez mais. O fotógrafo, em pânico, com medo de a gente ser preso. E imagine se eu iria embora! Era minha primeira matéria pautada pela dona do jornal, poderiam até me prender, mas embora eu não iria. Até que apareceram dois policiais, o fotógrafo insistindo para a gente ir e eu querendo terminar. Só que ninguém ali sabia do golpe dado pelos militares dias antes, Paraty era praticamente fora do mundo...

 

 

Formação dos novos jornalistas

Sobre os problemas de formação nas escolas de jornalismo, eu conversei com meu irmão, que é médico, e ele disse que isso acontece também nas escolas de medicina, o que é muito mais preocupante. Essa questão envolve um problema não exclusivo da formação de jornalistas, que é a deficiência do sistema educacional brasileiro. E a esse respeito eu não tenho condições de discutir. Agora, no caso específico do jornalismo, o que as empresas têm feito – com maior ou menor sucesso, eu não sei dizer – é criarem elas próprias alguns mecanismos de aperfeiçoamento. A Folha, por exemplo, tem um sistema de treinamento. A Editora Abril também tem um sistema assim, o Estadão também, enfim, cada uma dessas empresas procura ter profissionais menos imperfeitos na sua formação. Não resolve exatamente o problema, que é mais grave e profundo, não é um curso de três meses que vai corrigir deficiências de anos e anos. Mas, de fato, é uma situação dramática. Até porque escrever não é uma coisa que você ensine na faculdade. Por isso, não se trata apenas de corrigir as escolas de jornalismo, é preciso corrigir lá atrás, o ensino básico. Além disso, há a leitura. Parece que cada vez se lê menos. E é lendo que você aprende a escrever. Problemas que as faculdades de jornalismo não têm condições de enfrentar, até porque elas proliferam de uma maneira completamente desordenada.

 

O jornalista Clóvis Rossi esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E em 23 de setembro

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