Postado em 01/11/2005
Grupo-símbolo da vanguarda artística japonesa mescla teatro, dança e artes plásticas em performances que desafiam antigos conceitos cênicos
Mesmo sendo países de culturas tão diferentes e de lados opostos no globo, Brasil e Japão têm uma ligação profunda e um entendimento mútuo, a despeito da língua. A forte imigração japonesa, que completa 100 anos em 2008 (veja boxe Já faz quase 100 anos), e as numerosas colônias situadas em vários cantos do nosso País – a maior delas bem pertinho, ali no bairro paulistano da Liberdade – são alguns dos capítulos que compõem essa história, recheada de trocas em áreas como costumes e culinária. Recentemente, a arte atou mais um desses laços. A companhia de dança-teatro Ishin-ha esteve pela primeira vez no Brasil, para três apresentações no Sesc Santos em outubro. “Eu assisti a um espetáculo deles em Osaka há 12 anos e fiquei extasiado com a tensão dramática do grupo”, conta o diretor de teatro Antunes Filho, coordenador do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), do Sesc Consolação, que estava presente na entrevista coletiva dada pela companhia. “Não é dança, não é teatro, é uma outra coisa, tem uma poesia incrível. Desde então, eu sempre tentei trazê-los ao Brasil.” O diretor, que sabidamente busca inspiração na arte japonesa para a realização de seus trabalhos – o dançarino de butô Kazuo Ohno é um de seus mestres –, foi figura atuante nos muitos telefonemas e e-mails trocados para acertar a vinda do grupo. “Há dez ou 12 anos era difícil pensar em viajar com nossos espetáculos mesmo dentro do Japão”, conta Yukichi Matsumoto, diretor e criador da companhia. “Desse modo, era impensável para nós nos apresentarmos no exterior. Mas, agora, a tecnologia e o apoio de Antunes Filho tornaram possível nossa vinda ao Brasil.”
O Ishin-ha, que em português significa “reforma”, foi fundado em 1970 em Osaka. Em seus espetáculos, a linguagem verbal, a dança, a música e as artes plásticas se fundem no estilo que passou a ser chamado de jan jan opera, expressão criada para traduzir o conceito de “barulho do cotidiano enquanto música”, como define Matsumoto. Música, canto, dança, ópera. É possível imaginar do que se trata? Melhor pensar novamente. “Você não pode analisar os espetáculos do Ishin-ha pelo que você já sabe de teatro”, acrescenta Antunes Filho. “Tem de ir sem preconceito, sem esperar aquela coisinha já pronta.”
“O Ishin-ha é considerado hoje um símbolo do teatro contemporâneo japonês”, explica Hiroshi Yoshii, diretor-geral da Fundação Japão, responsável junto com o Sesc São Paulo pela vinda do grupo. “Por isso achamos importante que o máximo de brasileiros o visse.” O espetáculo apresentado no Sesc Santos foi criado especialmente para essa pequena turnê americana do grupo, que passou também pelo México. Chama-se Natsu no Tobira, ou A porta do verão, em bom português. Uma homenagem dos japoneses ao País que praticamente simboliza a estação? Também, mas, além disso, mais uma prova dos pontos em comum entre os dois povos. “O japonês também é muito sensível ao verão”, explica o diretor Yukichi Matsumoto. “E nós já dançamos vários verões. É uma estação na qual o ser humano fica mais irracional, mais selvagem, o intelecto como que derrete. Além disso, a estação é significativa também porque é no verão que comemoramos o nosso feriado de Finados e foi no verão que a bomba atômica caiu sobre Hiroshima.”
O verão mostrado pelo Ishin-ha foi “urbano”. A trupe explorou os efeitos do forte calor sobre a cidade, e a luz e as sombras que o Sol traz. Por isso, contrariando uma tradição do grupo, que sempre se apresenta em espaços alternativos – quando não ao ar livre –, Natsu no Tobira foi apresentado no teatro da unidade, onde a luz poderia ser mais bem controlada e os contrastes mais elaborados dentro do conceito. “A melhor opção para esse espetáculo foi trabalhar num espaço fechado”, conta Matsumoto. “Justamente pela exploração da luz e da sombra.”
O espetáculo, que fala de um Japão absolutamente atual, quebrou também outro protocolo: voou do Japão direto para a cidade litorânea de Santos, fugindo do manjado eixo Rio–São Paulo. É época de novidades.
Já faz quase 100 anos - Evento comemora o centenário da vinda dos primeiros japoneses ao Brasil
Com o intuito de aproximar ainda mais a cultura dos dois povos e divulgar os 100 anos da chegada dos primeiros imigrantes japoneses ao Brasil, já se iniciaram diversas ações da comunidade nipônica da cidade de São Paulo para a realização da Festa de Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa, programada para junho de 2008. A primeira etapa desse trabalho, no entanto, poderá ser conferida este mês no Sesc Vila Mariana. É o Festival de Cultura Nipo-Brasileira, destaque da unidade nos dias 12 e 13. O evento vai reunir diversas atrações da cultura japonesa, como exposições de arte, música, dança, esporte e os característicos desenhos animados japoneses, os animes, e também suas histórias em quadrinhos típicas, os mangás. Além disso, haverá oficinas e diversas outras atrações para os interessados. Para saber mais sobre a programação da mostra do Sesc é só conferir o Em Cartaz desta edição.