Postado em 01/11/2005
Alternativas para uma arquitetura mais humana numa cidade com tão pouca tradição em espaços destinados ao convívio urbano
O próprio conceito de metrópole provoca diversos debates, mas não faltam exemplos de consenso no que diz respeito à qualidade de vida e a uma relação mais humana entre o cidadão e a cidade. É o caso de Paris – apontada como referência de urbanismo por quase todos os arquitetos entrevistados por esta reportagem. No entanto, na contramão dos elogios está, infelizmente, a maior e mais rica cidade da América Latina: a complicada São Paulo. As reclamações vão de problemas com o trânsito caótico às deficiências do transporte coletivo, passando pelas calçadas malcuidadas e pela falta de espaços públicos de qualidade. “Não existe motivo para chegar atrasado a um compromisso em Paris”, afirma o arquiteto Tito Lívio Frascino, responsável pelo projeto do Sesc Santo André. “Já aqui não só existe motivo, como qualquer compromisso exige uma programação prévia, que demanda muito mais tempo do que de fato seria necessário.” Miguel Juliano, que projetou a unidade do Sesc Pinheiros – e mais recentemente foi responsável pelas linhas do Sesc Santana, inaugurado em outubro –, aponta outros problemas. “Esta é uma cidade onde o prazer acontece em grande parte das vezes dentro dos espaços privados. Não é à toa que temos um metro quadrado caríssimo. O portenho [natural de Buenos Aires] ou o parisiense vivem muito mais tempo fora de casa do que nós, justamente porque eles podem aproveitar a cidade de um jeito bem diferente do paulistano.” E é exatamente essa relação com um espaço público que dê conta das necessidades de lazer da cidade que está em jogo nos projetos arquitetônicos do Sesc São Paulo para suas unidades.
Por estarem inseridas em uma situação urbana tão complicada é que se torna ainda maior a responsabilidade em criar uma obra que abrigue múltiplas atividades e garanta a convivência entre seus usuários. A tarefa é árdua e parte de muitas premissas. O funcionamento pleno dos prédios é a última etapa de um trabalho que começa entre pranchetas de arquitetos e soluções de engenharia. É quando fatores como impacto ambiental, design e circulação fluida de pessoas são milimetricamente calculados. “Desde o início da década de 90, passamos a incorporar gradativamente aos projetos das novas unidades técnicas de economia de água e energia elétrica, com vistas à preservação das fontes desses insumos”, afirma Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo. “As unidades Vila Mariana, Santo André, Pinheiros e Santana contemplam uma série desses dispositivos.” O diretor também esclarece que uma das principais preocupações de qualquer projeto de nova unidade é o bem-estar dos que vierem a usufruir os equipamentos do prédio. “Como servem a públicos variados, as unidades precisam ao mesmo tempo dar conta das mais diversas situações de interesses a ser satisfeitos, além de, claro, provocar esses interesses.” Segundo ele, a proposta do Sesc é basicamente fundamentada na diversidade de valores, costumes e interesses. Por isso, cada usuário precisa encontrar na sua unidade de escolha um espaço que lhe diga respeito. “Isso não é uma tarefa fácil para quem planeja”, afirma. E como é o trabalho dos profissionais responsáveis pela empreitada? Descubra a seguir.
“Quando a arquiteta Lina Bo Bardi foi chamada para o projeto, a idéia era preservar a antiga fábrica, que havia sido construída no final dos anos 20, mas cujo projeto havia sido pensado no final do século 19; além disso, o prédio tinha uma importância histórica na região. Naquela época, 1977, era uma idéia bem pioneira. A questão principal era como conseguir abrigar naquele espaço toda a programação do Sesc. Tinha de ter restaurante, área de convivência, teatro, biblioteca, área de exposições, enfim uma porção de coisas. Dos galpões, aquele onde está o teatro foi o que sofreu maior intervenção estrutural e arquitetônica. Trabalhamos nessa obra todos os dias durante nove anos. Nosso escritório era lá mesmo, a Lina fazia questão disso. Tínhamos uma ótima equipe formada pelo departamento de engenharia e por operários do próprio Sesc. Eram pessoas fantásticas que ajudaram muito na realização do projeto, pois o Pompéia tem muitas coisas experimentais. Aquele foi um espaço para o exercício da profissão de arquiteto em sua verdadeira acepção. Era um lugar efervescente, por onde passaram vários intelectuais ligados à possibilidade de realizar um trabalho muito interessante.”
André Vainer, arquiteto. Foi assistente de Lina Bo Bardi, no projeto do Sesc Pompéia
“Um dos aspectos que eu ressaltaria na unidade de Santo André é o conforto térmico. Procuramos criar espaços com muita luz natural, porém controlada. Não há incidência direta dessa luz, mas os espaços são muito claros. Assim, automaticamente economizamos energia. Outro aspecto é a ventilação natural do espaço. Foram previstos vários sistemas que retirassem o ar quente daquele ambiente. Tanto é que somente o teatro, os gabinetes dentários e o setor de administração precisam usar ar-condicionado. Para aproveitarmos melhor a água, conseguimos ainda fazer uso de uma nascente que havia na região que fornece uma água que não serve para consumo, mas é utilizada para limpeza. Para o aquecimento da água das piscinas, preferimos empregar gás natural, o que colabora para a diminuição do impacto ambiental, pois polui menos. Essa obra é muito interessante também porque foi feita em sistema misto de construção, com concreto, alvenaria e estrutura metálica. Assim, as peças foram feitas sob medida para a obra, o que possibilitou que não se desperdiçasse material. Todo o projeto de Santo André buscou respeitar muito o meio onde foi construído. Isso se reflete inclusive no projeto horizontalizado da unidade. Isso porque todo o entorno é horizontalizado, então o prédio não causa grande impacto na paisagem do bairro.”
Tito Lívio Frascino, arquiteto responsável
“Muita coisa interfere no projeto de uma unidade do Sesc, que reúne coisas tão diversas como natação, teatro, bar, quadra esportiva etc. No prédio da Vila Mariana me ocorreu a idéia de que a unidade fosse quase oca por dentro, para que os usuários sempre pudessem ver onde estão localizadas as atividades, e assim se interessassem por elas. Foi isso que pautou o projeto: da lanchonete se vêem as piscinas, das quadras você enxerga o teatro e por aí vai. Ao todo, entre o início e a inauguração da obra, foram dez anos, de 1988 a 1998. A opção por duas torres acabou sendo guiada tanto por exigências legais como também por restrições do terreno. Só assim seria possível colocar naquele espaço tudo que era necessário. Uma unidade do Sesc exige estruturas com grandes vãos livres e, por isso, partimos para um projeto em que o apoio se desse nas paredes, não em pilares. Obviamente muita coisa influencia as diretrizes de um projeto, mas as obras do Sesc são feitas para lazer e cultura, independentemente de onde elas estejam.”
Jeronimo Bonilha Esteves, arquiteto responsável
Reflexão sobre a cidade - Sesc São Paulo participa da 6ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo
Com o tema Viver na Cidade: Arquitetura – Realidade – Utopia, a 6ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo fica em cartaz até 11 de dezembro, na Fundação Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera. O evento tem como meta refletir sobre o desafio de viver nas grandes metrópoles no século 21. “É uma oportunidade para aprofundar a reflexão sobre a participação dos arquitetos na qualidade de vida das cidades brasileiras e na inclusão social da população”, diz Paulo Sophia, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento São Paulo. Entre os convidados para discutir o tema, está o Sesc São Paulo, que participa da mostra expondo o conjunto arquitetônico de suas unidades, na capital e interior, ao longo de seus 60 anos de história. A exposição do Sesc ocupa 200 metros quadrados de área fechada e mais uma parte do primeiro pavimento, onde estão os estandes das instituições convidadas para a Bienal. Também há uma vitrine de maquetes e cerca de 50 publicações com informações técnicas e históricas de todas as 30 unidades do Sesc no estado de São Paulo, e das suas futuras instalações. Tudo para que o visitante conheça também os princípios que orientam a construção de uma unidade desde o primeiro esboço até seu funcionamento. “A apropriação do espaço pela comunidade é o foco de nossa arquitetura, que sempre nasce com o sonho de acolher as diversidades", diz Vinicius Terra, da Gerência de Estudos e Desenvolvimento (GEDES). “No passado se pensava que era exclusividade das elites, mas isso não é verdade. A idéia é que o público perceba como as edificações e, em conseqüência, as cidades, ganham qualidade quando têm a intervenção de um arquiteto", conclui o arquiteto Pedro Cury, que divide a curadoria do evento com o também arquiteto Gilberto Belleza.
Saiba mais:
Sobre a programação do estande do Sesc São Paulo na 6ª Bienal Internacional de Arquitetura: www.sescsp.org.br
Sobre a Bienal: http://bienalsaopaulo.globo.com