Postado em 01/11/2005
Depois de um período pouco criativo, a música infantil entra em fase de intensa produção, com boas opções para os filhos – e também para os pais
O clichê já foi empregado em diversas reportagens sobre o assunto: música infantil é coisa séria. E é mesmo. Mas a produção do estilo nos últimos dez anos – que dá continuidade ao que de melhor já se fez para os pequenos ouvidos, como Os Saltimbancos (1977), de Chico Buarque, ou A Arca de Noé (1980), de Vinicius de Moraes e Toquinho – nos mostra que vale acrescentar mais um dado a essa definição: música infantil é coisa de músico, músico de verdade. E não de meia dúzia de empresários dispostos a lançar “mais um produto”, de olho na rentável faixa de mercado formada por quem nem sequer entrou na puberdade. Bom exemplo disso é que, já na década de 40, um dos grandes mestres da música brasileira, Braguinha – o João de Barro –, incorporava em sua obra peças que entrariam para a história dos grandes clássicos voltados a esse público, mesmo não havendo naquela época uma prateleira específica nas lojas de discos. São canções como Pirata da Perna de Pau (1947) e Tem Gato na Tuba (1948), e, anos depois, em 1960, as antológicas fábulas musicadas por ele – com regência de Radamés Gnattali –, como Chapeuzinho Vermelho e Festa no Céu. Todas da Coleção Disquinho – quem tem mais de 30 anos deve se lembrar bem das coloridas bolachinhas de vinil. “Braguinha é meu ideal de artista. Ele é ao mesmo tempo o compositor de Carinhoso, de tantas marchinhas de Carnaval, e o cara da [Walt] Disney no Brasil”, afirma o músico Hélio Ziskind, autor dos não menos conhecidos temas de abertura dos premiados programas infantis da TV Cultura Cocoricó, Glub Glub e Castelo Rá-Tim- Bum, este último em parceria com André Abujamra e Luís Macedo.
Chega de chaticeA enxurrada de CDs e DVDs voltados para crianças que hoje desaba sobre a cabeça de pais e filhos não seria possível se a própria infância não fosse descoberta pelo mercado. E isso é bom e ruim. Na verdade, revela mais um desafio para os adultos, os responsáveis por guiar os pequenos no momento de escolher o que levar para casa. “É engraçada essa história de disco infantil”, analisa em entrevista publicada em seu site oficial o músico e compositor Chico Buarque, autor de O Grande Circo Místico (1983) e do já citado Os Saltimbancos – ambos endereçados às crianças, mas presença obrigatória em muita festa de adulto (“Nós, gatos, já nascemos pobres...” – quem não conhece?). “Na época, eu tive uma dificuldade muito grande pra lançar esse disco [Os Saltimbancos], porque não havia o menor interesse por parte das gravadoras em lançar um disco infantil. Hoje em dia acho que há um excesso de música infantil. Descobriram a criança como mercado comprador de disco. Isso me incomoda um pouquinho.” Para muitos músicos foi justamente esse desconforto que os fez começar a compor para crianças. E iniciativas de gente como Paulo Tatit e Sandra Peres, do selo Palavra Cantada, e até de Adriana Calcanhotto, com o elogiado Adriana Partimpim (2004), levaram alternativas ao mercado. “Foi justamente o cenário para música de criança na época, 1994, que criou o selo”, explica o músico Paulo Tatit, à frente do Palavra Cantada junto com a musicista e cantora Sandra Peres. A idéia do Palavra Cantada nasceu, segundo Tatit, de uma conversa sobre como estava tediosa a experiência de ouvir música feita para criança. “Fazia tanto tempo que só tinha música chata martelando na cabeça das crianças que isso, de fato, foi até um incentivo para a gente pensar numa contraproposta de música infantil.” De acordo com Sandra Peres, a idéia inicial foi fazer um CD com canções de ninar. “Mas o impacto foi tão absurdo, a gente vendeu tanto, houve tanta procura, que a gente começou a querer fazer disso o nosso trabalho principal. Daí vieram os outros CDs”, explica. O selo conta hoje com dez títulos, sendo o mais recente deles Pé Com Pé, lançamento deste ano. “Música de qualidade está ligada a honestidade e verdade”, analisa Sandra. “E isso significa não usar de subterfúgios para atrair a atenção da criança, é fazer um arranjo que não seja exagerado, é cantar de um jeito que leve em consideração quem está ouvindo, e não cantar de um jeito superextrovertido só para a criança ficar ‘suuuuuperalegre’ – quando na realidade fazer música de qualidade é também fazer música triste, introspectiva, música de terror. Afinal, o ser humano é feito disso tudo.” Tatit explica ainda que não é necessariamente pela letra que eles “pegam” os pequenos. “Tem músicas que a gente atrai por uma brincadeira com a melodia. A criança tem de estar presente em todas as etapas da criação de uma música. Da idéia – o tema – até a maneira de cantar, passando pela melodia, harmonia, ritmo, arranjo e maneira de cantar. Eu, por exemplo, não gosto de arranjos muito complexos para crianças. Para mim, tem de haver um espaço, um buraco na música, que é como se a criança pudesse entrar mais nas canções, pudesse ‘olhar’ só para a caixa da bateria, por exemplo, ‘olhar’ para uma flauta-doce.” Outro ponto fundamental levantado pela dupla é a possibilidade de a criança poder repetir várias vezes um refrão ou uma estrofe. E isso se torna mais fácil se a melodia for sucinta. “Quanto mais prolixa é a melodia, mais difícil fica de você encaixar uma letra”, explica Sandra.
Olhar de cientista Hélio Ziskind endossa: o segredo está em dosar música e letra. No entanto, no seu caso, sem preocupações em seguir uma fórmula. Para ele, quanto mais honesto o compositor for consigo mesmo, mais dialogará com o público. “A música é como o mar”, compara Ziskind. “E pode ter adulto que nada no raso e criança que nada no fundo. Ou seja, eu não faço distinção quando estou criando para criança e quando estou criando para adulto. Como sou adulto e a música precisa ser interessante para mim também, o que eu faço acabou servindo para a família. Está embutido na minha música o convívio de um adulto com uma criança.” No que diz respeito à letra, o músico acredita que nem sempre a fantasia desenfreada deve emoldurar as situações. “Gosto da explicação científica do mundo. A borboleta não precisa falar, morar numa casinha ou algo assim. Ela pode ser uma borboleta mesmo, e ter os problemas dela como bicho. Acho que a criança é meio parecida com o cientista, ela tem uma maneira de estar diante do mundo que é a de quem está olhando as coisas sempre pela primeira vez.”
Já a cantora e compositora Adriana Calcanhotto, famosa por explorar em suas canções relações adultas, decepções amorosas e saudades incuráveis, surpreendeu a todos com o seu último lançamento, que mostra uma faceta mais lúdica da cantora. “A idéia surgiu por volta de setembro de 1994. Imaginei que esse seria um gênero musical mais solto, menos visado, menos patrulhado por regras e absolutos como são o rock, o pop, a música eletrônica ou o samba de raiz, cheios de comissões julgadoras e rigorosos especialistas”, explica em entrevista publicada em seu site oficial. Segundo ela, a impressão é que o “para criança” da coisa esteve mais presente no processo de produção do que no resultado em si, uma vez que não aceita a etiqueta de disco infantil – prefere indicar seu disco como de “classificação livre”.
Cirandas e sapinhosA atual produção de músicas para crianças encontra no resgate de clássicos e de canções populares de autores anônimos grandes aliados para expandir o conhecimento musical dos pequenos. O próprio Palavra Cantada fez isso em Cantigas de Roda (1996) e depois em Canções do Brasil (2001). O primeiro reuniu músicas que passam de geração a geração há séculos nas brincadeiras e folguedos populares de rua, enquanto o segundo traz uma seleção das raízes rítmicas do País já apropriadas pelas crianças das periferias das grandes cidades do Brasil. “O Cantigas de Roda foi um disco muito bonito de fazer porque o desafio era cantar aquelas músicas hoje em dia, e de um jeito que conferisse a elas um status de músicas que estão aí há 200 anos, sem que os novos arranjos as avacalhassem”, explica o músico Paulo Tatit. “E o Canções do Brasil traz manifestações populares, como o maracatu e o bumba-meu-boi, já com uma reciclagem dos próprios jovens das periferias.” Outro feliz lançamento, no estilo “canções de que todo mundo se lembra” e que valem a pena conhecer, foram os dois volumes do livro Quem Canta Seus Males Espanta (Editora Caramelo, 2005), que reúnem dezenas de clássicos, na linha de Ciranda Cirandinha e Se Essa Rua Fosse Minha. Os livros, organizados pela pedagoga Theodora Maria Mendes de Almeida, vêm acompanhados de CD, o que garante a festa. “O que
nos chamou a atenção foi o sucesso dos livros com todas as gerações”, explica Theodora. “Desde os pequeninos que têm contato com as músicas pela primeira vez até avós e bisavós que se lembram da infância ao ouvir.” Ela explica que, no entanto, não são só as cirandas, os pintinhos amarelinhos e os sapos que agradam a turminha. Há muita música feita por compositores “de gente grande” que as crianças adoram ouvir. Entre as mais pedidas, A Banda, de Chico Buarque, Águas de Março, de Tom Jobim, Asa Branca, de Luiz Gonzaga, e O Que É Que a Baiana Tem?, clássico na voz de Carmen Miranda, e O Mar, ambas de Dorival Caymmi.
A programação de outubro do Sesc não deixou criança nenhuma parada – e, claro, acabou chacoalhando também muita gente grande. O evento especial Esquindô-lê-lê – Tem Música no Ar!, realizado pelo Centro Experimental de Música (CEM), do Sesc Consolação, e o show Sopros, Cordas e Novas Canções do Cocoricó, apresentado no Sesc Pinheiros, marcaram o mês das crianças. “O Sesc tem um trabalho amplo na educação musical infantil”, esclarece Flávia Bolaffi, técnica do CEM. “E o evento Esquindô-lê-lê procurou mostrar um pouco de cada uma das diversas atuações do Sesc na área.” A programação do Sesc Consolação foi dividida em três partes: Música Feita para Crianças, que apresentou shows de músicos profissionais que contribuem para a formação do gosto musical infantil. Já Música Feita por Crianças foi composta de apresentações de grupos e coros infanto-juvenis de escolas e ONGs. E, por fim, Crianças Fazendo Música reuniu vivências com diversos elementos musicais, como construção de instrumentos e criação de canções. “A melhor parte é a facilidade com que eles aprendem e se desenvolvem”, conta Gisele Cruz, regente do coral do colégio paulistano Dante Alighieri, que se apresentou durante o evento. Nos dias 12 e 13 de outubro no Sesc Pinheiros foi a vez de as músicas, antigas e inéditas, do famoso programa infantil Cocoricó (foto), da TV Cultura, serem apresentadas ao vivo pelo autor, o músico Hélio Ziskind. Muita festa na platéia e no palco. “No meu modo de cantar, eu sinto que vou eliminando aquelas coisas que seriam difíceis de acompanhar”, explica o músico. “Vou me guiando um pouco pelo esqueleto da idéia, quanto mais perto eu estiver do esqueleto melhor será para permitir que todos cantem comigo.”
Grande parte dos artistas que fazem música para crianças tem em comum a certeza de que ela tem de envolver os pequenos no processo. “Trata-se de mexer com a capacidade da criança de apreciar uma forma artística qualquer”, explica o músico Paulo Tatit, criador, junto com Sandra Peres, do selo infantil Palavra Cantada (foto). “É mais para o lado da sensibilidade do que para o lado do saber. A vida de uma pessoa melhora muito quando ela tem um lado mais sensível.” E é esse “exercício da sensibilidade” o mote principal do trabalho desenvolvido no Laboratório de Educação Musical (LEM), coordenado pelo professor doutor do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Arte (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), Pedro Paulo Salles. “Todo cidadão tem direito ao acesso à linguagem musical não só como ouvinte, mas também como produtor e criador”, explica. “A música, essa incrível criação da humanidade, deve pertencer a todos, e não só a alguns escolhidos.” Tendo em vista esse preceito, Salles orienta um grupo de graduandos da Faculdade de Música da USP que desenvolve um trabalho com cinco turmas de crianças e adolescentes, jovens de 7 a 17 anos. Para o professor, a importância desse trabalho se mostra tanto no aspecto cognitivo – uma vez que a formação musical favorece o raciocínio, a autonomia, a atuação e o desenvolvimento da intuição e do planejamento – quanto no aspecto afetivo e social. O músico Hélio Ziskind, que também compõe de olho na educação musical das crianças, acrescenta ainda que o canto é uma boa porta de entrada para os pequenos começarem a explorar o universo das notas. “Eu canto junto com duas meninas, uma de 17 e a irmã de dela, de 12. Nós cantamos juntos o tempo todo. E eu já fiz apresentações no Sesc Consolação, por exemplo, com 60 crianças cantando comigo. Então, essa coisa de cantar junto é um dos lemas do trabalho.”
A Arca de Noé (1980).
Vinicius de Moraes e Toquinho
Os Saltimbancos (1977).
Chico Buarque
Adriana Partimpim (2005).
Adriana Calcanhotto
Palavra Cantada – 10 anos (2004).
Paulo Tatit e Sandra Peres
Meu Pé Meu Querido Pé (1997).
Com músicas dos programas infantis da TV Cultura Cocoricó, Castelo Rá-Tim-Bum e X-Tudo, entre outros. Hélio Ziskind
Quem Canta Seus Males Espanta
(vol. 1, 1998) e (vol. 2, 2000).
Acompanham os livros CD. Organização: Theodora Maria Mendes de Almeida
Samba pras crianças (2003).
Vários
Tibidábi – O Bicho Papão Bom (2004).
Marco Lyrio