Postado em 01/10/1998
José Carlos Ferrigno
Acompanhando as expressivas transformações no universo do trabalho que estão ocorrendo em quase todas as partes do mundo, também o Brasil tem apresentado importantes mudanças de cenário nessa área. Certas profissões encontram-se em nítido declínio, enquanto outras adquirem crescente importância. Atividades como as de bancário, metalúrgico, servidor público, contador estão em baixa, mas ocupações como as de gerente de novos produtos, consultor de informática, assessor de recursos humanos e a carreira de especialista em lazer, turismo e recreação são cada vez mais promissoras.A chamada indústria do entretenimento já é a segunda maior atividade econômica do mundo. Só nos Estados Unidos movimenta 350 bilhões de dólares por ano. Abrange uma grande diversidade de atividades como teatro, cinema, turismo, restaurantes, jogos esportivos, parques de diversão e muito mais. Não esqueçamos, aliás, a bilionária indústria do lazer doméstico materializada na conhecida parafernália de aparelhos eletroeletrônicos, como TV (comum e a cabo), vídeocassete, vídeogame, CD, computador etc.
Estamos diante, portanto, de um mercado de trabalho em franca e vigorosa expansão. Contando com empregadores do Estado e da iniciativa privada, a indústria do lazer e da cultura tem como palco os centros culturais, museus, conservatórios, oficinas culturais, parques temáticos, megalivrarias, turismo convencional e ecoturismo, além de atividades recreativas em fábricas, escolas e hospitais, como é o caso de trabalhos como o dos chamados "doutores da alegria".
O profissional do lazer, também conhecido como animador cultural, tem muitos outros nomes - orientador, monitor, curador, promotor, agitador ou programador cultural. Tal profusão de denominações para uma mesma carreira contribui para que haja uma certa indefinição na identidade profissional, agravada inda pela coexistência difícil entre os chamados ou presumidos profissionais da "alta cultura" e aqueles que animam festas e gincanas.
Outra questão importante para os aspirantes em algum trabalho cultural diz respeito à formação do animador cultural, ainda pouco sistematizada. Muitos profissionais tiveram que aprender na prática os macetes da profissão. Apesar dos pesares, o crescente reconhecimento social da carreira tem refletido no aumento progressivo de disciplinas na área do lazer em cursos de graduação como Turismo, Educação Artística, Educação Física, Pedagogia, Serviço Social e Terapia Ocupacional, entre outros. Ao mesmo tempo, observamos o surgimento de cursos técnicos como os do Senac e de vários cursos de pós-graduação, desenvolvidos por diversas faculdades e universidades brasileiras, como a Universidade Estadual de Londrina, a Unicamp, as Universidade Federais de Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília, além da Escola de Sociologia e Política de São.Paulo.
O lazer é entendido pela maioria das pessoas como um conjunto de atividades destinadas somente ao entretenimento ou à reposição das energias despendidas no trabalho. Embora seja correta tal conceituação, o lazer pode se constituir em uma importante alternativa de educação informal e permanente, contribuindo eficazmente para o desenvolvimento sociocultural de pessoas de todas as idades e de todas as classes sociais, promovendo a aquisição de novas habilidades e incrementando o exercício da cidadania. Por essa razão, o profissional do lazer deve estar consciente de sua importância, principalmente em um país como o nosso, tão carente na área educacional.
A sonhada "civilização do lazer", na qual a mão-de-obra humana será progressivamente substituída por máquinas, permitindo que haja cada vez mais uma ocupação prazerosa do tempo livre nos parece ainda muito distante. Porém, no próximo século haverá milhões de pessoas em todo o mundo investindo tempo, dinheiro e muitos sonhos em atividades de lazer. Ainda bem.
José Carlos Ferrigno é psicólogo e técnico do Sesc