Postado em 01/10/1998
A míngua da várzea paulistana muito se deve à especulação imobiliária que se tornou incompatível com grandes espaços sem a presença de edifícios, mas, até devido a esse motivo ou em conseqüência de características sociais próprias da atualidade, os esportes passaram a ter reduzido o número de participantes. Senão, vejamos: do futebol de campo, com 11 atletas de cada lado, nasceu o futsal, com cinco atuantes por time, confinados em espaço diminuto, cercado e coberto; o voleibol, com seis jogadores, substituiu as tradicionais disputas em quadras cobertas pelas duplas na areia das praias. O que se vê com freqüência hoje em dia são torneios e campeonatos que adaptam os esportes tradicionais, restringindo o número de participantes sem, no entanto, alterar a essência das regras.
Adaptações à vida moderna
Quando se diminui o número de jogadores, realiza-se uma opção pela individualidade contra o coletivo. Num primeiro momento, essa proposta pode parecer antipática, mas, analisando profundamente, os técnicos do Sesc enxergaram aí a possibilidade de facilitar o acesso de um maior número de pessoas às várias modalidades. Para que um jogo de basquete se realize são necessários dez jogadores, uma bola, duas cestas e uma quadra. Na adaptação da modalidade, o streetball, apenas três jogadores, uma bola e uma cesta são suficientes para o jogo. Dessa maneira, em vez de afastar, as adaptações contribuem para que o esporte se aproxime da realidade das pessoas.
Nos Jogos Femininos, disputados na unidade Interlagos, todas as modalidades tem origem nos esportes tradicionais: em quatro anos consecutivos, o torneio é realizado com o objetivo de estimular o público feminino para a prática desportiva. O número de mulheres participantes aumenta a cada campeonato. Para uma equipe inscrever-se é necessário que ela represente uma empresa. Assim, além de conscientizar sobre os benefícios do esporte para a saúde, o campeonato promove a melhoria na qualidade de vida das mulheres trabalhadoras, integrando-as no seu ambiente de trabalho. "Depois que organizei as meninas da empresa para jogar, muitos funcionários vieram conversar comigo. Todos querem saber como estamos indo nos jogos", diz Ana Paula Sousa, 18 anos, coordenadora de uma das equipes. "Ao trabalharmos com as modalidades adaptadas, aumentamos a chance dessas meninas entrarem em contato com os esportes. Na maioria das vezes, se exigíssemos que os times atendessem às normas tradicionais, não seria possível que o campeonato fosse realizado, uma vez que é mais interessante para as empresas mobilizarem duas ou três funcionárias em vez de 11", atesta Maurício Del Mero, coordenador do campeonato.
No Sesc Consolação, os esportes adaptados também já conquistaram a terceira idade. "A adaptação das modalidades também serve como estratégia para aprimorar a técnica. Os atletas passam a ter uma noção maior dos movimentos da bola. No entanto, a coisa mais importante dessa proposta é mostrar que é possível praticar esporte em qualquer circunstância", explica Claúdia Cássia de Campos, coordenadora de esporte da unidade.
De acordo com o público, os técnicos escolhem os esportes mais convenientes para serem adaptados. Para a terceira idade, o vôlei transformou-se em câmbio, o handebol em queimada e o futebol, praticado numa quadra de grama sintética, foi adequado ser realizado com apenas cinco jogadores em cada time.
Para os adolescentes, além do torneio de streetball e do futebol society, a unidade promove, periodicamente, aulas abertas de esportes ainda pouco difundidos nas ruas. O tchoukball, que mistura aspectos do vôlei, handebol e pelota basca, conta com uma quadra adequada para sua prática. Outra modalidade adaptada pouco conhecida, mas muito procurada na unidade, é o floorball, que possibilita a prática do hóquei fora das superfícies de gelo. "A repercussão dessas aulas abertas é muito boa. Os alunos conhecem novas modalidades e passam a praticá-las em outros lugares. Dessa maneira, estamos estendendo ao público externo o trabalho que realizamos aqui dentro", analisa a coordenadora.
O Sesc Pompéia também coloca suas quadras à disposição dos interessados em modalidades adaptadas. Isso acontece por vários motivos; entre eles, uma melhor organização dentro dos diversos perfis de alunos e seus níveis de familiarização com determinado esporte. "Na verdade, há dois lados nessa questão da individualização e adaptação de modalidades esportivas", explica Ricardo de Paula Ribeiro, técnico de esporte da unidade. "Geralmente quem joga em dupla ou em trio são pessoas mais habilidosas. Mas trata-se também de uma adaptação e até mesmo funciona como uma maneira de chamar mais atenção para a modalidade". Quanto às técnicas, as diferenças entre as adaptações e os estilos convencionais ficam por conta da duração dos sets e de alguns detalhes de posicionamento, principalmente no caso do streetball e do vôlei de praia.
Dificuldades à parte, o vôlei de praia é, sem dúvida, uma das modalidades esportivas com maior sucesso em suas adaptações. Modalidade olímpica oficial, o vôlei de praia ou vôlei de areia, saiu dos litorais do mundo e hoje é levado para qualquer lugar. O Sesc Itaquera promove há quatro anos o Campeonato de Vôlei de Areia em sua unidade. Em três quadras adaptadas, o jogo já virou tradição e é aguardado a cada verão. "Nós começamos sempre em dezembro para aproveitar a alta temporada de janeiro", explica Gérson Luiz de Sousa, técnico de esporte do Sesc Itaquera. Todo ano uma personalidade do esporte prestigia a abertura do evento.
Adaptar as modalidades é, antes de tudo, adequar o esporte à realidade urbana atual. A falta de tempo, de espaço e uma vida cada vez mais acelerada exigem do homem uma nova postura em relação ao cotidiano. Possibilitar a prática do esporte, de uma maneira ou de outra, contribui para a atenuar os problemas da vida moderna.
O que é o que no esporte adaptado: