Postado em 01/10/1998
Entre os dias 26 e 30 de outubro, será realizado o 5º Congresso Mundial de Lazer quando estarão em discussão questões prementes para o bem-estar social neste fim de século. A importância do encontro aumenta ainda mais se for tomado o exemplo de São Paulo, cidade que a cada dia vive mais pelo (e, por que não, para) o lazer
Com seu típico senso de humor, o brasileiro assim definiu as atribuições dos três Estados mais importantes do país: "Minas governa, o Rio se diverte e São Paulo trabalha". Não bastasse isso, São Paulo é considerada "a cidade que não pára de crescer" ou "a cidade que amanhece trabalhando". Ter a fama de séria, produtiva, geradora de riquezas é bom, claro. A avenida Paulista, com seus prédios imponentes e trânsito intenso, aliás, traduz bem essa idéia.
Mas nem só de trabalho vive o paulistano. A constatação, inclusive, não é de agora. Em 1926, o então prefeito da cidade, Pires do Rio, em relatório enviado à Câmara Municipal, chamava a atenção dos vereadores sobre a necessidade de se construir um "jardim igual ao Hyde Park, em Londres" e propunha a criação do Parque Ibirapuera. A área, de mais de um milhão e meio de metros quadrados, viria a ser inaugurada nas comemorações do 4º Centenário de Fundação de São Paulo, em 1954.
O Ibirapuera tornou-se, sem dúvida, um dos maiores cartões de visita da cidade (a avenida Paulista, no entanto, continua sendo muito mais convidativa para quem vem de fora). Somente nos finais de semana, o Parque recebe cerca de 200 mil pessoas que têm à disposição pistas de cooper, aparelhos de ginástica, quadras de tênis e poliesportiva, shows, biblioteca, serviço médico, sombra e água fresca. Além do Museu de Arte Moderna (MAM) e do Pavilhão da Bienal.
Nosso Ibirapuera não chega a ter a fama de um Hyde Park, mas certamente o ex-prefeito não poderia imaginar que o lazer do paulistano no final do século 20 estaria bem além daquele das áreas verdes. Lazer que virou indústria
Quarenta e quatro anos depois da inauguração do Ibirapuera, o lazer em São Paulo vive a era da globalização, com cinemas multiplex, parques temáticos, bares, restaurantes e uma vida noturna agitada. É diversão e arte 24 horas por dia, criando um segmento de atividades empresariais que oferece todo o tipo de entretenimento e impulsiona a economia, gerando empregos. "São Paulo está no ciclo natural de evolução para o setor terciário, enveredando para o serviço, lazer e cultura", analisa Luiz Felizardo Barroso, da Faculdade de Direito da UFRJ. "Além de ser um grande negócio, atenua o desemprego", constata o professor, que é também consultor da International Franchise Masters.
Quem vê os dois lados da moeda é Tom Zé, idealizador do movimento tropicalista com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Betânia, com os quais desembarcou em São Paulo em 1968. Encantado com a cidade desde que chegou, o baiano nascido no município de Irará compôs a música São Paulo Meu Amor, que virou uma espécie de hino e tornou o compositor garoto-propaganda do turismo paulistano, como ele mesmo reconhece: "Gil, Caetano, Gal e Betânia foram viver no Rio e eu fiquei", relembra.Tom Zé mora no bairro de Perdizes, na zona oeste da capital, e diz que quando tem um tempo livre entre uma e outra viagem aos Estados Unidos, aproveita para ter contato com a natureza. "Começo no jardim do edifício, onde planto rosas, e passeio pelos parques para respirar e conhecer outras pessoas, já que sou um amigueiro, e de noite vou principalmente a shows de música popular brasileira".
O músico, que agora se prepara para o lançamento de mais um disco, Fabrication Defect, recorda-se dos tempos difíceis em que ficou no ostracismo até ser descoberto pelo músico David Byrne nos Estados Unidos. "Fora da mídia, sobrevivi porque morava em São Paulo, onde sempre tive como trabalhar", diz. "Tocava nos auditórios de universidades e era sempre chamado para as programações culturais do Sesc", relembra. Lazer em casa
Por mais que a cidade ofereça opções, tem hora que não dá para competir com a televisão, o vídeo, a internet e a TV a cabo. Pesquisa sobre as práticas e aspirações culturais dos paulistanos encomendada pelo Sesc indicou que 88% dos mais de 1.200 entrevistados assistem televisão e o programa preferido são as novelas (31%), seguido por telejornais (24%) e pelos filmes (16%). "A casa é o principal equipamento de lazer do indivíduo", diz o sociólogo Luiz Otávio Lima Camargo, coordenador da pesquisa. Outros dados indicam a pouca disposição do paulistano para sair de casa, também por questões econômicas.
Segundo a pesquisa, 49% nunca foram ao cinema (questionados sobre qual veículo em que assistem aos filmes, apenas 6% responderam cinema). A situação do teatro é pior: 72% nunca foram ver um espetáculo. A pesquisa quis ainda saber o que as pessoas fazem em casa como sinônimo de lazer. No item literatura, 47% não leram sequer um livro ao longo dos últimos 12 meses. Nesse caso, a abstinência literária atinge mesmo aqueles de classe econômica mais abastada. Já a leitura dos jornais cativa 68% dos entrevistados.
Atrair o paulistano para as opções de lazer que a cidade oferece é a velha luta entre Sansão e Golias, na comparação do professor Lima Camargo. Ligado à Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, ele diz que todo o esforço realizado para tirar o paulistano de casa nunca será suficiente. Segundo o sociólogo, o lar tem um grande motivo para ser o espaço mais convidativo de lazer: "A pessoa passa a ter uma ligação sentimental pelo lugar, se sente mais à vontade e seguro, e isso ele não troca por nada", conclui. Praia noturna
Seria injusto dizer que o paulistano não se diverte. Se a cidade não foi contemplada pela natureza, como o Rio de Janeiro, costuma-se dizer que a praia daqui é a noite.
Mas segundo números da Associação de Bares e Restaurantes Diferenciados da capital, o mar não está para peixe. Levantamento feito pela entidade, que reúne cerca de 350 estabelecimentos em que se possa comer, beber, dançar ou ver shows, aponta que nos últimos quatro anos a queda no movimento vem se acentuando e chega hoje a 40%. De acordo com o presidente da Associação, Percival Maricato, os negócios para os donos de bares e restaurantes não andam bem por causa da crise econômica da classe média. "Estamos reinvidicando junto ao governo a redução do valor de encargos e outras taxas para poder oferecer preços mais acessíveis e manter a qualidade do cardápio", diz ao reclamar que só de impostos os comerciantes pagam até 20% do faturamento.
Para contornar a crise no setor da gastronomia, os donos de bares e restaurantes de São Paulo apelam para promoções na tentativa de atrair o cliente, ora para um relaxante happy hour, ora para curtir o inverno paulistano com vinhos ou chocolate quente. A Broadway é aqui
Apesar da crise, a noite inspira grandes investimentos e busca agora sofisticar suas atrações com eventos só encontrados em outros países.
A Via Funchal, casa noturna inaugurada há pouco mais de um mês, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo, vai apresentar espetáculos conhecidos somente por paulistanos que costumam ir à Nova Iorque. A Via Funchal é um investimento de 40 milhões de dólares, concebida para abrigar os mais diversos espetáculos. A casa, pelo sistema de disposição da platéia, pode receber um público que varia de 2.859 espectadores sentados até 6.128 pessoas em pé. Pelo número de lugares, ela já é considerada a maior entre as casas de espetáculo do gênero em São Paulo. A programação pretende contemplar vários tipos de shows, como balé, samba, rock, além de musicais infantis e shows da Broadway.
O ecletismo da cidade possibilita outros investimentos de menor porte, mas igualmente vantajosos. A Vila Madalena, em Pinheiros, zona oeste, antes apenas famosa pela concentração de artistas, é hoje considerada pela Associação de Bares e Restaurantes Diferenciados "a maior atração turística da cidade". Ali o mecânico Flávio Pires resolveu, no começo da década de 1990, diversificar seus negócios.
Dono de quatro oficinas mecânicas, Flávio apostou na área de entretenimento. Gastando cerca de cinco mil dólares, fundou a danceteria Quitandinha e quase dez anos depois é dono de outras duas danceterias e um café, todos na Vila Madalena.
O segredo do negócio do empresário, que não abandonou as oficinas de carro, é que as danceterias funcionam de segunda a quinta-feira e mediante reserva: "Nos finais de semana a disposição para sair de casa é menor por causa do problema da violência e da dificuldade em encontrar uma vaga para estacionar", conclui.
A "Vila", como é carinhosamente chamada pelos freqüentadores do bairro, alimenta ainda a economia informal. Pessoas, mesmo empregadas, vendem bijuterias, bebidas e muito cachorro-quente, aproveitando o intenso movimento, registrado principalmente nas noites de sábado, quando os bares e danceterias são freneticamente disputados por um público predominantemente jovem. Domingo no parque de diversões
A cidade dispõe de outros lugares. Eles podem não ser tão bucólicos como o Simba Safari e o Jardim Zoológico, que proporcionam tranquilos passeios entre muito verde e animais de todas as partes do mundo, ou o Parque do Estado, na zona sul da capital. Mas também nos levam a entender por que as crianças gostam tanto desse tipo de entretenimento: os parques de diversão. Quem não volta no tempo ao contemplar a cidade do alto da roda-gigante ou provocar "gravíssimos" acidentes nas pistas do carrinho de bate-bate, se travestir de caubói no tiro ao alvo e ainda sentir calafrios no "chapéu mexicano"?
No Brasil, os parques de diversão são mais de mil, a maioria (90%) móveis cumprindo as rotineiras temporadas em diversas cidades do país ou montados junto a feiras agropecuárias e festas religiosas. Segundo a Adibra, a associação que reúne os donos de parques no Brasil, eles empregam direta e indiretamente 270 mil pessoas e faturam cerca de US$ 350 milhões por ano.
Os parques mantêm os tradicionais brinquedos que ao longo de décadas sempre caracterizaram esse tipo de entretenimento. Mas, com a evolução tecnológica, algumas empresas, como o Playcenter, na Marginal do Rio Tietê, estão modificando seu perfil, incluindo os chamados brinquedos radicais em seus empreendimentos, para atrair cada vez mais público, de acordo com Juscelino Cecel Peixoto, presidente da Adibra. "Ainda assim os parques brasileiros atendem apenas 10% do seu potencial estimado", afirma. Por causa disso é cada vez maior a participação de outros segmentos empresariais como bancos, construção civil, fundos de pensão e de comunicações na construção de parques, principalmente aquáticos e temáticos. Lazer e comércio nos shoppings
Os poucos lojistas de shoppings que se aventuraram em abrir aos domingos apostaram no movimento que lazer e alimentação (únicos setores com autorização para trabalharem neste dia) poderia representar. Um ano depois, 90% das lojas do Shopping Center Eldorado abrem voluntariamente aos domingos: "Não é o frequentador dos dias de semana", constata a gerente de marketing do Eldorado, Sônia Paloschi. "Vem a família inteira para almoçar, os filhos aproveitam para brincar e os pais sempre fazem uma comprinha e acabam brincando com os filhos", observa.
Segundo Sônia Paloschi, "graças a essa harmônica convivência as lojas chegam a faturar aos domingos o equivalente ao movimento da quinta-feira, considerado o melhor movimento da semana, enquanto a praça de alimentação fica lotada, principalmente quando o domingo não é de sol".
Conhecida como a maior do Brasil, a praça de alimentação do Eldorado comporta 850 pessoas e conta com o mais variado cardápio gastronômico desde o fast-food até restaurantes. O local conta ainda com o Parque da Mônica, para crianças, e o Play Land, miniparque que diverte também jovens e adultos. "O lazer alavanca o comércio", finaliza Sônia, há dez anos no mercado de marketing.
Uma outra opção de lazer, o cinema, que sempre movimentou os shoppings aos domingos, ficou ainda mais atraentre com as salas cineplex que chegam a oferecer até oito filmes ao mesmo tempo. O aspecto segurança e a facilidade de estacionar levaram as exibidoras a incluir novos horários na programação, onde já é possível encontrar sessões à meia-noite. Prefeitura e empresas:clubes de família
Numa cidade sem praia (e novamente vem a comparação com o Rio), faz diferença relevante o item econômico. Para se divertir em São Paulo é preciso ter dinheiro no bolso.E é claro que na periferia da cidade, o morador fica ainda mais prejudicado por falta de opções de lazer ou é excluído delas caso não tenha condições financeiras para ter acesso aos entretenimentos eventualmente existentes. Por esse motivo, a Prefeitura, pela Secretaria de Esporter e Lazer, desenvolve projetos para atender as camadas mais carentes da população e tornar o lazer mais democrático.