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Mostra Sesc de Artes 2005

Postado em 01/08/2005

O apagamento das fronteiras entre as linguagens artísticas favorece a realização de grandes mostras, mas também impõe o desafio de dar coerência a uma babel de expressões

 

A multidisciplinaridade num evento artístico, reunindo diversas linguagens – de música a artes plásticas, passando por performances ou literatura –, não é exatamente uma novidade. Esse tipo de manifestação ganhou destaque com o movimento das vanguardas do início do século 20, como o futurismo, o dadaísmo e o cubismo. “A própria Semana de Arte Moderna de 1922 foi um evento multidisciplinar”, lembra a jornalista especializada em arte Paula Alzugaray. No entanto, o grande mérito do formato não é, de fato, o ineditismo. A dinâmica do “tudo ao mesmo tempo agora” serve, principalmente, para refletir o ritmo e os anseios da própria sociedade que a abriga. “Não faz sentido fazer uma exposição só de pintura, por exemplo. O que acontece é que agora, com a diluição cada vez maior das fronteiras entre meios, suportes e disciplinas da arte, algumas curadorias procuram se pautar também pela experimentação de novas relações e vizinhanças entre propostas estéticas”, explica. Para a jornalista, o segredo de uma mostra é encarar essas “experiências” como conseqüência de um conceito bem desenvolvido e não simplesmente como “uma razão de ser”. E adverte que é preciso não confundir pluralidade artística com entretenimento. “Há eventos que a meu ver propõem apenas um tipo de emoção e diversão, a mesma que se busca nos parques temáticos. E isso não configura um projeto artístico.”

 

A preocupação em garantir o foco na qualidade do que é exposto em detrimento da quantidade de manifestações culturais apresentadas é o principal aspecto que deve ser levado em conta na discussão sobre esse tipo de evento. Pelo menos, essa é a opinião de especialistas como a doutora em história da cultura pela Universidade de São Paulo (USP) Giselle Beiguelman, também professora do programa de pós-graduação em comunicação e semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “O que temos de interrogar é em que medida as mostras culturais têm responsabilidade social”, afirma a professora. “Isso implica, necessariamente, sólida formação crítica dos organizadores, rigor dos participantes nas respostas dadas às situações propostas, clareza na apresentação dos conteúdos e conceitos para o público.” Para o crítico de arte Tadeu Chiarelli, qualquer concepção de exposição de arte deve, ainda, estar atenta às propostas das obras exibidas, independentemente da linguagem empregada. “Você pode mostrar pinturas com vídeos, games com desenhos, não interessa. O que importa é a lógica interna das obras selecionadas e o que se quer fazer com elas.”

 

 

Nove anos de Mostra Sesc de Artes

Um dos eventos culturais que mais exemplificam o caráter pluralista de uma grande reunião de manifestações artísticas é a Mostra Sesc de Artes, uma programação que envolve de atores a artistas plásticos, passando por músicos, bailarinos, escritores, cineastas e artistas multimídia.

 

A primeira delas foi a Temporada Sesc Outono, realizada em 1997. Um recorte especial na programação das unidades que se encerrou com o Projeto Babel, reunindo 100 artistas num enorme galpão localizado onde hoje é o Sesc Pinheiros. No ano seguinte, foi a vez do Mundão, realizado no Sesc Santo Amaro, reunir representantes da diversidade, como a banda – então iniciante – Karnak, de André Abujamra e o músico Tom Zé. “O evento realmente colocou o bairro [de Santo Amaro] no mundo”, afirmou Tom. Ainda em 1998, o Sesc realizou o projeto Lorca na Rua, que, numa homenagem ao centenário do escritor e poeta espanhol Federico García Lorca, organizou uma turnê por todo o interior do estado em três grandes caminhões que se transformavam em palco para peças do autor.

 

 

Na virada do milênio

Em 1999, o clima de final de século fez com que os eventos daquele ano entrassem em ritmo de retrospectiva e balanço. A contribuição da obra e do pensamento do modernista Mário de Andrade, autor de Macunaíma – o Herói sem Nenhum Caráter, foi passada a limpo na mostra temática Coração dos Outros – Saravá, Mário de Andrade, realizada no Sesc Belenzinho. A multiplicidade cultural na era da globalização também ganhou sua leitura em 1.999... Reticências, a contagem regressiva rumo ao século 21, que levou a todas as unidades uma programação especial para mexer com a noção dos limites entre as culturas e as linguagens artísticas.

 

Uma vez “zerado o taxímetro” do século que acabava, era a vez de olhar para o futuro e para o Brasil. Como resultado de uma verdadeira andança pelo País, feita pelos próprios técnicos da instituição, o projeto Balaio Brasil buscou, em 2000, descobrir e realçar a produção artística nacional que ainda não tivesse caído nas graças – ou seria garras? – da chamada mídia de massa.

 

No ano de 2001, a dança foi o destaque, com a ocupação dos palcos de todas as unidades da capital por uma mostra internacional.

 

 

Reflexões fora do eixo

O grande evento dedicado às artes realizado pelo Sesc recebeu pela primeira vez o nome de Mostra Sesc de Artes em 2002, edição que teve como tema a relação entre público e obra, sintetizada sob o título Ares e Pensares. Em 2003, com o intuito de colocar o brasileiro em contato com a cultura de seus vizinhos de continente, a Mostra Sesc de Artes escolheu o tema Latinidades, reunindo manifestações artísticas das três Américas – e também da Europa, pelas origens históricas dos povos latinos.“[Nós, latinos] Somos a síntese de muitos processos migratórios e civilizatórios. Nas artes ocorre o mesmo”, declarou o cineasta argentino Fernando Solanas, que teve seu filme Sur (1987) exibido como parte da programação.

 

Finalmente, no ano passado, a Mostra Sesc de Artes aconteceu como parte de um encontro internacional que “invadiu” São Paulo, novamente com diversas atividades: o Fórum Cultural Mundial, que levou a discussão da cultura para os campos econômico e social – em foco a produção cultural como geradora de renda e peça da engrenagem econômica de um povo. Segundo declarou o diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, sobre a última edição da mostra, a proposta era “reunir esforços internacionais para dar lugar a uma agenda voltada às questões mais relevantes do mundo que existe fora do eixo hegemônico”.

 

 

Mar de influências - Mostra Sesc de Artes de 2005 propõe um Mediterrâneo sem limites geográficos

O Mediterrâneo é um mar do Atlântico oriental localizado entre a Europa, a porção ocidental da Ásia e o norte da África. Possui 2,5 milhões de quilômetros quadrados e é o maior mar interior do planeta. No entanto, apesar de a localização ser precisa, a dimensão de seu significado para o mundo ganha contornos, detalhes e alcance menos exatos – o que o torna complexo e singular. A lista de países que se banham em suas águas impressiona pela diversidade de cultura e religiões. Turquia, Albânia, a antiga Iugoslávia – hoje Eslovênia, Bósnia-Herzegovina e Croácia –, Grécia, Itália, França, Espanha, Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egito, Israel, Jordânia, Síria, Chipre e Malta.

 

Foi buscando essa mesma diversidade que o Sesc São Paulo definiu o tema da Mostra Sesc de Artes deste ano. O Mediterrâneo, e tudo o que ele significa, é o grande chapéu que abriga todas as “cabeças artísticas” que estarão em São Paulo nos próximos dois meses – de 18 a 28 de agosto na capital, e de 23 de agosto a 11 de setembro no interior (veja boxe Em relevo). “A leitura do Mediterrâneo feita para a mostra partiu dos primórdios históricos, geográficos – muito importantes –, geopolíticos, culturais, filosóficos, religiosos e simbólicos relacionados aos momentos atuais da nossa história”, explica a assistente Nurimar Maria Falci, da Gerência de Ação Cultural (Geac). “E esse momento atual é de um grande fluxo migratório, de uma grande diáspora mundial.” Nurimar segue explicando que as temáticas abordadas pelos grupos artísticos convidados para a mostra “giram em torno de questões globais, algumas delas que atingem mais diretamente os países de origem mediterrânea, mas que não devem ser analisadas isoladamente”. Esse pensamento justifica a presença de artistas brasileiros, portugueses e até alemães no evento, incluídos principalmente pela influência que receberam. “No caso do Brasil, existem ligações históricas, geopolíticas e culturais”, afirma Nurimar.

 

 

Em relevo - São Paulo recebe artistas de diversas partes do Brasil e do mundo

Um mundo de manifestações artísticas poderá ser conferido durante a Mostra Sesc de Artes – Mediterrâneo. Os destaques são muitos e em diversas áreas – música, cinema, literatura, dança, teatro. Na tela do CineSesc haverá nomes de diversos países, como o francês Jean-Luc Godard, com O Desprezo, e o grego Theo Angelopoulos, com Paisagem na Neblina. A cultura digital estará representada com eventos tanto nas salas de Internet Livre das unidades quanto no site do Sesc São Paulo (www.sescsp.org.br). A música reunirá diferentes gêneros – do flamenco ao jazz, do rock à música erudita – em shows como o do músico franco-argelino Gaâda, o dos portugueses Luísa Cruz e Jeff Cohen e o do grupo brasileiro Pedra Branca. Para os amantes da dança, esta é uma grande chance de conferir o cenário internacional com representantes que vão de manifestações folclóricas até a produção contemporânea, como o Teatro Nacional do Norte da Grécia, que trará o espetáculo Swan Lake City; os franceses do Fábulas de La Fontaine – com duas coreografias, Le Rat des Villes et Le Rat des Champs e Le Loup et l’Agneau – e a brasileira Verve Cia. De Dança, que apresentará Feique – em Algum Lugar, Porém, Aqui. Já a programação teatral destaca o grupo espanhol Cane Mondo, com Querer y no Poder; o espetáculo TAOUB, do Coletivo Acrobático de Tanger, do Marrocos; a companhia franco-inglesa Théâtre de L’ange Fou; os brasileiros do Grupo Moitará, do Rio de Janeiro, com Imagens da Quimera e O Jogo das Máscaras; e o Giramundo, de Minas Gerais, com sua versão do clássico Pinocchio. Confira a grade completa no Em Cartaz.

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