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Dança Comunidade, projeto concebido pelo coreógrafo Ivaldo Bertazzo e realizado pelo Sesc São Paulo, ensina arte, cidadania e convivência em grupo a jovens da periferia paulistana
César Dias Sirqueira é um jovem de 15 anos, morador do bairro de São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, que sempre se interessou pela dança. Atraído pelos passos do jazz desde os nove anos, César encontrou em trabalhos desenvolvidos pela ONG Novo Olhar, na favela Pantanal, a chance de se iniciar no mundo das artes. No entanto, em maio do ano passado, sua rotina foi quebrada por um fato novo. Algo que - para ele isso é certo - mudará sua vida. César é um dos 55 adolescentes, vindos de sete ONGs da periferia de São Paulo, que fazem parte do novo projeto do coreógrafo Ivaldo Bertazzo, Dança Comunidade, realizado pelo Sesc São Paulo, por meio de sua unidade Belenzinho, e com patrocínio da Petrobrás, co-patrocínio do Instituto Votorantim e apoio do Ministério da Cultura e da Lamitec. Concebido e dirigido por Bertazzo, que criou o conceito de cidadãos-dançantes (nome dado por ele aos indivíduos que se dispõem a conhecer melhor as possibilidades de movimento de seu próprio corpo), o projeto resultará em seu novo espetáculo, Samwaad - Rua do Encontro, com data de estréia prevista para 23 de março (convidados) e 24 (público em geral)."O que nós desejamos com esse projeto é dar um norte aos professores de ONGs que trabalham nesse contexto chamado arte-educação", explica Ivaldo. "Em diversas dessas instituições existe um setor que se preocupa muito, e legitimamente, em usar a arte como um recurso agregador do jovem em sua comunidade." Com uma metodologia abrangente, as aulas não se resumem apenas às matérias que ajudam a esculpir um artista. Além de dança, percussão corporal e música, os jovens aprendem a conviver em um ambiente no qual a cidadania e o respeito - a si próprio e aos outros - são exercitados dia a dia. E mais, são municiados também a reproduzir igual ambiente no local onde vivem. "Durante todo o processo a gente teve um espaço extremamente organizado, no qual o jovem, ao entrar, se estabelece já num projeto", continua o coreógrafo. "Esse jovem sabe que aquele é um lugar reservado para ele se desenvolver. É muito sério isso de você definir um espaço, isso organiza muito o jovem. E o Sesc nos cedeu um local aqui no Belenzinho, onde, aos poucos, as salas de trabalho foram se transformando num exercício de civilidade. Os jovens aprenderam a manter o banheiro limpo, a comer - durante as refeições que nós fazemos juntos - sem sujar o chão; aprenderam a limpar o espaço deles. Enfim, eles aprenderam a conviver em grupo." No Dança Comunidade, os adolescentes receberam aulas de fisioterapia teórica e prática, circo, origami (técnica japonesa de dobradura de papel), e até mesmo atendimento médico, odontológico e exame clínico. Além de alimentação, transporte e ajuda de custo.
Tudo e muito mais
Os jovens escolhidos para participar do projeto e compor o elenco do espetáculo não são exatamente estranhos do palco. Pelo fato de fazerem parte das ONGs, todos eles mostram incrível clareza acerca do trabalho realizado. Rubens de Oliveira Martins, de 17 anos e vindo da ONG Movimento de Promoção Humana Arrastão, da região de Campo Limpo, apesar da pouca idade, dá aulas de música, dança e expressão corporal para crianças e se mostra mais feliz pela oportunidade de adquirir novos conceitos e passá-los a seus alunos do que propriamente receber os aplausos do público. "É tudo muito mais incrível e totalmente diferente do que eu havia aprendido", fascina-se. "Eu sabia o básico e isso é muito mais. Está sendo muito importante porque o meu desejo é seguir nessa área e depois disso eu, com certeza, estarei mais avançado que outras pessoas. O Ivaldo até disse que muitos bailarinos não conseguem, por exemplo, 'contar' a música; e aqui a gente aprende a contar ela inteira. E eu vejo mesmo essa dificuldade lá com as minhas crianças do Arrasta Lata (nome do projeto onde ministra as aulas). Sei que depois que eu sair daqui vou ter um ótimo currículo para passar a elas." Gabriela Luna, de 17 anos, do Centro de Educação Popular Nossa Senhora Aparecida, em Ermelino Matarazzo, também se orgulha em dizer que sempre fez questão de se envolver em "meios onde havia cultura". Mas isso não a impediu de achar que estava prestes a fazer parte de algo que, para ela, era um bicho-de-sete-cabeças. "Quando eu fiquei sabendo desse projeto novo, me interessei muito em participar. Mas ao mesmo tempo fiquei pensando: 'Será que esse teste vai ser difícil?'. Mas quando eu cheguei aqui, fiquei encantada, descobri os limites do meu corpo, tudo o que nunca tinha feito. Através desse método do Ivaldo, aprofundamos os conhecimentos, passamos a fazer bem melhor o que já fazíamos antes." Para os dançarinos de street dance José Mário Jesus Candido, de 17 anos, da Associação Sarambeque, no Jardim Monte Azul, e Márcio Greik, de 16 anos, do Projeto Samaritano São Francisco de Assis, também em Ermelino Matarazzo, aplicar o conceito robótico da dança de rua na nova proposta fluida de Bertazzo não foi exatamente tarefa fácil, porém, mais uma vez, o conceito de superação de desafios falou mais alto. "Achei que ia ser tipo uma mistura de dança africana com dança contemporânea", conta José Mário. "Mas vi depois que é bastante misturado, o Ivaldo está colocando um pouco de break, um pouco de afro, contemporâneo, indiano, tem até samba!." "A surpresa foi grande", completa Márcio. "Eu pensei que a gente viria aqui passar alguns movimentos de dança de rua. Eu até sabia que teria uns lances da linguagem que o Ivaldo tem, mas não me passava nem um pouco pela cabeça qual era essa linguagem, que a gente usaria muito a percussão de pés, por exemplo. É bastante diferente o lance do olhar, por exemplo, e do movimento das mãos." Já César Dias, o jovem que emprestou sua história para o início deste texto, descobriu que, de fato, o projeto não teria a ver com o jazz a que estava acostumado - "e eu que vim para o teste todo preparado, com sapatilha e tal, achando que ia dançar algo tipo o que eu já conhecia", lembra-se o jovem -, mas não se sentiu intimidado em decifrar os novos códigos que estavam sendo apresentados. "Quando eu cheguei aqui, o pessoal começou a passar os passos; vi que não tinha a ver com o que eu pensava. Aí, eu parei e pensei: 'Meu Deus, o que eles estão fazendo?'. Mas como eu já dançava, não foi difícil 'pegar' outro tipo de dança. Para outras pessoas deve ter sido, né? Para quem nunca dançou, por exemplo...", imagina.
Auto-estima se constrói
Um dos aspectos do projeto que Ivaldo Bertazzo faz questão de ressaltar é que cada dia de aprendizado possui como principal objetivo a construção da auto-estima dos jovens. Porém, para ele, essa empreitada não se resume ao glamour de uma apresentação artística. "Não se trata somente de ser aplaudido e acariciado pelo público, isso é o prazer; mas é o outro lado. Aplausos e luzes são prazerosos, mão não é esse o foco." O foco, segundo explica, é destacar o valor de cada um dos participantes, despertando neles a noção do saber e do aprendizado. "É uma luta contra o não saber, em direção do conhecimento, vencendo etapas, dificuldades. Quando tudo acontece, no final o indivíduo encontra a auto-estima, ou seja, ele entendeu que para vencer na vida é preciso ir lutando por etapas. A auto-estima é a força que se adquire nesse processo." A aluna de balé Dheize Paloma, de 16 anos, selecionada na ONG Ação Comunitária Tiradentes, concorda. Risonha, e um tanto tímida, ela deixa transparecer no olhar quase infantil o orgulho que sente de si mesma por fazer parte do projeto. "Eu pensava que seria um espetáculo de axé", confessa aos risos. "Mas adorei descobrir que não era. Eu estranhei um pouco no começo, mas agora eu estou adorando. Não queria que tudo acabasse depois do espetáculo. Mas o Ivaldo disse que não vai acabar, que a gente vai continuar o trabalho na nossa ONG e que nós devemos procurar desenvolver o que ele passou para a gente mesmo depois que a gente não estiver mais aqui."
A cítara e o pandeiro Samwaad - Rua do Encontro, espetáculo nascido com o projeto, chega ao palco com os jovens dançarinos misturando samba e música indiana
Com estréia prevista para 23 de março (convidados) e 24 (público em geral), o novo espetáculo de Ivaldo Bertazzo (na foto, rodeado pelo elenco) promete desbravar novos caminhos nas artes cênicas. Tendo como protagonistas os mais de cinqüenta jovens que participam do projeto Dança Comunidade, o espetáculo Samwaad - Rua do Encontro pretende mostrar a força de uma paulicéia que quase nunca ocupa as páginas de cultura do País. "Nós olhamos as pessoas da periferia e dizemos 'ah, eles são muito rudes', porque as condições que os envolvem não os estimulam a se refinar", afirma Ivaldo. "Só que não existe o ser de periferia e o ser do centro da cidade. Dizer que a cultura nesses dois lugares é muito diferente nesses jovens é mentira, é uma ilusão. Muitos pais privilegiados não prestam atenção ao jeito que a criança fala, ao modo como ela articula o português. O que nós vamos mostrar com o espetáculo é que, uma vez havendo investimento, o retorno sempre é uma coisa muito especial." No entanto, o coreógrafo adianta que quem estiver esperando alguma iniciativa amadora no palco está enganado. A perfeição dos gestos e a eloqüência dos movimentos, características de qualquer bom espetáculo de dança, podem e devem ser aguardadas, para evitar qualquer equívoco. "O meu objetivo não é levar as crianças ao palco para que as pessoas vejam que elas são bonitinhas, para que as pessoas as aplaudam e digam 'olha, elas também têm o direito de estar aqui'. Não!", afirma Ivaldo, categórico. "Essas crianças têm de estar esplêndidas no palco, expondo um gesto e uma expressão que o público ainda não conhece - inclusive gente que faz dança e teatro e que tem muito que aprender ao vê-las. E aprender mesmo, como linguagem. Nesse sentido, se as pessoas acham que eu estou juntando um grupo de jovens da periferia porque agora a onda é o 'social', estão enganadas, porque o que eu estou mostrando é: 'Pessoas das artes, fiquem atentas porque esses serão os artistas do futuro'." A trilha sonora também reserva novidades. Principalmente para aqueles que não assistiram às apresentações do espetáculo Samwaad, realizadas em novembro passado também no Sesc Belenzinho. O registro do show que misturou músicos indianos com sambistas de escolas de samba de São Paulo tocando sentados como numa orquestra será um dos pontos fortes do novo espetáculo. Cítara, pandeiro, tabla e tamborim mostrando que a arte não respeita fronteiras. "Samwaad é um termo criado pelo Madhup Mudgal, músico indiano que construiu a trilha, e que significa 'harmonia do encontro'", esclarece Ivaldo. "Se a gente vive numa época na qual se fala tanto em globalização e fusão, por que não ousar com uma escola de samba e um grupo indiano? Nós vamos mostrar que a raça humana, na essência, tem as mesmas matrizes. Todos falam usando a língua, todo mundo usa a articulação da boca para falar, só que línguas diferentes; todas as raças usam o mesmo corpo para andar, só que andam de jeitos diferentes. Na essência, nós somos iguais, só que nos vestimos culturalmente de jeitos diferentes. A essência desse trabalho é reconhecer uma base humana que é parecida, que possui os mesmos interesses", conclui.
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