Postado em 01/08/1997
O cinema nasceu curta-metragem. Em 28 de dezembro de 1895, quando Louis Lumière fez a primeira exibição pública de seu filme, a platéia ficou boquiaberta ao assistir na tela aos trabalhadores saindo, em um único plano, das fábricas da família Lumière, em apenas um minuto e meio de duração. É claro que não foi só isso. Depois dessa rápida aparição, outras, não menos sintéticas, seguiram-se para o deleite do público presente. O sucesso do cinematógrafo foi imediato, embora Louis, num colossal erro de perspectiva, tenha julgado a nova invenção de pouco futuro e, em 1900, afastou-se do cinema retornando à fabricação de equipamentos fotográficos. Com um pouco mais de um século de existência, o cinema aumentou horas de duração, mas o curta-metragem manteve-se como formato ideal para a experimentação.
O 8º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, considerado a maior vitrine latino-americana da categoria, será realizado de 21 a 30 de agosto. O evento, produzido pela Associação Kinoforum, patrocinado pela Enterpa Engenharia e co-promovido pelo Cine Sesc, mostra o que há de mais recente na produção brasileira e mundial. "A idéia original era criar um espaço para mostrar os curtas-metragens e abrir mercados. Era um momento em que o cinema nacional estava na mais profunda recessão e o festival serviu para alavancar uma nova ge-ração de cineastas que estavam chegando e não tinham onde exibir seus filmes, uma vez que todos os outros espaços estavam fechados", diz Zita Carvalhosa, diretora do evento. Hoje, o festival encontra-se entre um dos mais importantes do mundo.
Dos 600 filmes inscritos para a seleção do Programa Internacional destacam-se o dinamarquês Ernesto e a Luz, de Thomas Jensen e Tomas Villum Jensen, indicado para o Oscar e, de Emmanuelle Bercot, As Férias, ganhador do Prêmio do Júri no último Festival de Cannes. No Panorama Brasil, dez programas apresentam a mais completa mostra da produção brasileira do último ano, entre eles os filmes de Carlos Gerbase e de Jorge Furtado, ambos da premiada Casa de Cinema de Porto Alegre. Nos Programas Especiais, a mostra Women Make Movies traz o ganhador do Palma de Ouro em Cannes, Peel, de Jane Campion. No Foco - Cinema Negro, destaque para a produção africana, desde sua origem até os dias atuais. Será homenageado o senegalês Mansour Sora Wade, que estará presente com uma restrospectiva de sua obra. O festival acontecerá no Museu da Imagem e do Som, no Centro Cultural São Paulo, no Espaço Unibanco de Cinema e no CineSesc, com entrada franca.
O evento não tem um caráter competitivo, pretende ser um local de encontro e reflexão sobre a produção cinematográfica da atualidade. "Tentamos não fazer seleção, criamos uma grade de horários, caso a produção brasileira estoure essa grade, aí sim faremos uma seleção, mas com critérios bastante abertos. Realizamos dez programas de filmes de 60 minutos cada, para dar tempo dos realizadores discutirem com o público após a sessão", explica Zita Carvalhosa.
"Um dos grandes trunfos deste festival é trazer várias pessoas que fazem pré-seleções para outros importantes festivais internacionais. Além de atrair um grande público, pois todas as sessões ficam lotadas durante a semana, ele tem função de vitrine para a circulação dos curtas-metragens," diz o cineasta Philippe Barcinski.
"O curta-metragem é muito dado à experimentação, à criação. É uma escola para novos cineastas. A maior parte dos que hoje fazem longas começaram a fazer curtas", diz o cineasta A. S. Cecílio Neto. Philippe Barcinski também concorda com a opinião. "Acho que o curta é o espaço onde o cineasta pode experimentar. O longa, além de ser muito caro, é muito difícil de se viabilizar um projeto experimental e depois existe toda uma responsabilidade mercadológica", afirma. "Os curtas apresentam temáticas e estéticas extremamente expressivas. Você se surpreende com a excelente qualidade e a criatividade que essas produções têm", diz o gerente do CineSesc Luiz Alberto Zakir.
O CineSesc, além de apoiar o festival, ainda mostra na sua programação comercial filmes de curta duração antes da exibição dos longas-metragens. Para eles é destinada uma pequena parcela da bilheteria. "É uma forma de incentivo. Muitas vezes dá para o diretor fazer uma nova cópia com este dinheiro", diz Zakir.
Panorama Nacional
O mercado nacional de curta-metragem é quase inexistente. A produção acaba encerrada a mostras e festivais para uma platéia restrita a cineastas e cinéfilos. Embora haja uma produção significativa em termos de quantidade e qualidade, poucos são os locais que apresentam essa modalidade ao grande público. "Temos um mercado entre aspas. O curta-metragem nacional não possui uma vida econômica e uma pequena presença cultural", afirma o produtor Cláudio Kahns.
Diferentemente do que acontecia nos anos 80, quando havia um mercado para os curtas-metragens. "Havia, nesta época, uma lei de obrigatoriedade que exigia a exibição de um curta nacional antes de um longa estrangeiro em qualquer cinema do país. Junto a isso, existia um mecanismo de recompensa financeira para os produtores desses filmes e, talvez, até pela existência de um mercado, o nível dos curtas foi melhorando muito", explica Cecílio Neto. Essa época, que ficou conhecida como Primavera dos Curtas, produziu filmes como o premiado Ilha das Flores, de Jorge Furtado; Três Moedas na Fonte, de Cecílio Neto; A Espera, de Luiz Fernando Carvalho e Maurício Farias, entre outros. Alguns jornais da época editavam, junto com a programação dos filmes, uma lista dos curtas-metragens em exibição, o que dava maior poder de escolha para o leitor. "Nos anos 80, quando o longa acabou, tínhamos curtas-metragens de qualidade e esses filmes passaram a ser o foco de atenção do cinema brasileiro. Criamos uma tradição", diz Philippe Barcinski. Para Joana Mariz, que acaba de dirigir o curta Sem Saída, a era Collor inviabilizou a produção de longas. Na falta dos filmes convencionais nacionais, restava ao cinéfilo a alternativa única dos filmes curtos, de produção mais acessível. "Na época, o único contato que o espectador podia ter com o imaginário brasileiro era através do curta. Então, havia aquela vontade de se fazer e assistir a esses filmes. Agora que os longas estão voltando para os cinemas, os curtas não têm o frescor que tinham.
Segundo a montadora Cristina Amaral, a falta de obrigatoriedade legal de exibição faz com que a maioria dos filmes não seja vista. "Os curtas brasileiros acabam confinados a algumas salas e a poucos festivais e mostras. Acho crucial que haja mais espaço e, se você tira os canais de exibição, o cinema morre", diz.
Para André Sturm, diretor de Tudo que é Sonho Desmancha no Ar, aumentou o número de produções no último ano. "Houve uma sucessão de prêmios como o Estímulo, em São Paulo, e um concurso federal promovido pelo Minis-tério da Cultura que aprovou 40 filmes. Imagino que no próximo ano existirá um aumento ainda maior de filmes. O crescimento da produção envolve, por consequência, os curtas-metragens." Zita Carvalhosa acredita que, embora haja uma grande produção, existe, por outro lado, uma falta de visibilidade desses filmes. "O Brasil está produzindo em mé-dia cerca de 80 curtas-metragens por ano", afirma. A média é mundial. Mas a situação está longe do desejado.
Com a entrada das TVs a Cabo no Brasil aumentam as possibilidades de canais de veiculação. Segundo Cláudio Kahns, a TV seria o veículo ideal para a exibição dos curtas. "A pessoa que vai ao cinema, está interessada em assistir ao filme. O curta pode ser bom, divertido, mas aumenta o tempo da sessão e os exibidores não gostam disso. Provavelmente boicotariam as exibições. Se você passar de três a quatro sessões em um dia, isso significa 50 minutos que o exibidor perde. Hoje, eu brigaria pela exibição dos curtas na televisão." Essa parceria ocorre com sucesso em alguns países da Europa, como a França. "Hoje, na Europa, não se faz um filme se não tiver uma televisão associada, está no próprio estatuto das TVs a obrigatoriedade de se financiar produções nacionais. Isso faz com que o cinema se desenvolva diferentemente", afirma Cláudio. No Brasil, ainda não existe uma legislação que preveja isso, assim, as televisões não têm nenhuma obrigatoriedade em relação ao cinema. Alguns canais estão abertos para o cinema brasileiro, como é o caso da Cultura e da TVA, mas ainda muito timidamente.
Nas Telas da TV
A lei de obrigatoriedade de se passar curtas-metragens antes da exibição dos longas continua existindo, mas não a regulamentação dela, o que implica na ineficácia prática da suas deliberações. O projeto de lei do senador Júlio Campos (PFL-MT), que prevê a exibição compulsória, já foi aprovado no Senado e agora precisa da aprovação da Câmara para entrar em vigor. "Está havendo uma movimentação da classe em função dessa lei. Ela ainda é muito genérica, portanto, o cerne dessa questão vai ser a regulamentação de maneira viável para todos. Estamos num bom momento para os curtas voltarem aos cinemas", afirma André Sturm.
Caso volte a vigorar a lei, o cinema e o público só têm a ganhar. "Com a retomada do cinema brasileiro, o curta-metragem vai novamente procurar seu papel. Porque ele virou o próprio cinema brasileiro, durante um bom tempo. O que trouxe grandes vantagens para o curta, mas configurava uma situação atípica. Este ano, quando estamos retomando um modelo mais comum de produção, precisamos descobrir qual o caminho que os curtas vão tomar. Sinto que o período de 86 a 96 é muito especial. O curta ganhou uma dimensão que em outros não tinha. Não só pela qualidade. Mas, de certa maneira, esse ciclo está se fechando. Acho que no festival deste ano vamos estar conferindo isso", finaliza Zita Carvalhosa.
Por Que o Curta?
O Sesc está há dois anos co-promovendo o Festival Internacional de Curtas-Metragens e ajudando a provar que nem só de dificuldades e de aspectos negativos vive esse estilo de cinema. Segundo o gerente do Cinecesc, Luiz Alberto Zakir, dois motivos levaram o Sesc a abraçar a causa desses cineastas. "O curta-metragem tem um valor inerente ao seu formato", explica. "Pode resumir uma reflexão, uma mensagem, uma nova estética, numa forma de cinema mais sintético." Além desse poder de síntese peculiar, o caráter laboriatorial próprio do curta-metragem motivou o Sesc nessa investida. O curta também é visto como o início perfeito para novos cineastas. "Ele tem sido uma excelente forma de aprendizagem do fazer cinematográfico", conta Zakir. "Custa menos, e é uma possibilidade bastante boa para aqueles que estão começando, que estão fazendo cinema pela primeira ou segunda vez."
Dentro dessa visão, o cineasta Philippe Barcinski compartilha da opinião de Zakir e vai mais longe. "Eu acho que o curta-metragem é o espaço em que o cineasta pode experimentar. O longa é muito caro e difícil de se viabilizar como um projeto experimental", defende. "Os meus dois filmes (A Escada e A Grade) são bastante experimentais mas não chegam ao ponto de serem super-radicais, são filmes que usam recursos narrativos para capturar a atenção do espectador. Eu trabalho com a atenção e a tensão do público, mas ao mesmo tempo não são filmes convencionais. Particularmente, são os filmes que mais gosto", confessa.
Embora seja um bom campo para esse tipo de experiência, o curta-metragem não deve ser associado à má qualidade de trabalho. Ainda segundo Luiz Alberto Zakir, existem curtas realizados por cineastas bastante experientes, unicamente pela alta valorização do modelo mais sintético.
A política de apoio do Cinesesc faz dele um oásis no deserto de salas dispostas a exibir um curta em suas telas. "O Sesc tem uma política de exibir um curta-metragem antes da maioria de nossos filmes", explica o gerente de Cinesesc. "Nós acreditamos nesse formato, por isso oferecemos uma parcela da bilheteria aos curtas. Mas, o mais importante é a possibilidade de difusão dos trabalhos." O Cinesesc destina aos curta-metragens 5% do total bruto arrecadado pela bilheteria, parte que caberia ao Sesc.
Além de motivos bastante atraentes e de uma filosofia voltada para a promoção da arte, a entidade apostou no fascínio provocado pelo curta e também na tradição conquistada pelo Festival Internacional de Curtas-Metragens. Com a coordenação de Zita Carvalhosa, o evento, agora em sua oitava edição, é mais um exemplo de iniciativa cultural apoiado pelo Sesc.